O primeiro restaurante sem caixote do lixo de Portugal

Rui Catalão e Maria Antunes // Fevereiro 15, 2020
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“Isso é impossível”, “como assim, sem caixote do lixo?”, “vocês são loucos”. Recebemos todo o tipo de reacções de descrença e cepticismo, de pessoas à nossa volta, à medida que partilhávamos esta ideia fora do vulgar – ter um espaço onde não há desperdício. Esta é a história (abreviada) de como transformámos esse sonho em realidade em Outubro de 2019.

As raízes começaram a nascer na Holanda, em Amesterdão, onde vivemos durante alguns anos, mais concretamente com um episódio numa das nossas idas ao supermercado. Um dia olhámos com atenção para o pão que normalmente comprávamos e assustámo-nos: tinha uma lista longa de ingredientes, incluindo açúcar, e muitos deles nem sabíamos exactamente o que eram. Arrancava aí uma jornada que nos levou, em primeiro lugar, a eliminar todo o tipo de produtos processados e embalados da nossa alimentação. Mas, também a mudar outros hábitos alimentares. Resultado: comíamos de forma bastante diferente da maioria. 

Os nossos colegas de trabalho estranhavam as nossas marmitas, os amigos mostravam interesse em saber mais. Até que surgiu um desafio, lançado por um casal amigo…

“Porque é que não abrem a porta de vossa casa a estranhos para comerem à vossa mesa?”

Absurdo, não é? Pois bem, demorámos a processar a ideia, mas decidimos avançar. Organizámos um primeiro brunch para quatro pessoas, em Fevereiro de 2017, e foi tão bom que rapidamente repetimos a dose, vez após vez, até regressarmos a Portugal. A experiência à mesa veio connosco para Lisboa e em menos de nada estávamos a receber estranhos, agora em Campo de Ourique, para um brunch feito de raiz, sem processados, privilegiando produtos locais, sazonais e biológicos.

Foi aí que os Kitchen Dates explodiram de popularidade. De cada vez que anunciávamos novas datas, os lugares esgotavam em dois ou três minutos. Não tínhamos mãos a medir com os pedidos de reserva que recebíamos. E começámos a receber repetidamente a pergunta: 

“Para quando um restaurante?”

Ao longo dos últimos anos, a origem dos ingredientes assumiu uma relevância ainda maior para nós. Já não bastava receber a matéria-prima em bruto – era preciso garantir que vinha de mãos nas quais podíamos confiar, com o mínimo de impacto ambiental possível. Em simultâneo, queríamos dar um passo seguro na eliminação absoluta das embalagens da nossa cozinha. Por isso, quando pensámos em procurar uma nova casa para fazer crescer os Kitchen Dates, tornou-se evidente que só havia uma forma de avançarmos: 

Assumir o compromisso com o desperdício zero.

Para materializar este compromisso, ficou claro que tudo o que entrasse pela nossa porta teria forçosamente um de três destinos possíveis: ser consumido, reaproveitado ou transformado em composto. Tudo o que não encaixasse num destes destinos ficaria de fora.

Inspirados por um par de exemplos que conhecíamos lá fora, apostámos num compostor eléctrico. Chamamos-lhe Eva, pois é parecida com a personagem do filme WALL-E, da Disney. Em 24 horas, a Eva transforma em composto todos as sobras da nossa cozinha e dos pratos dos clientes. Esse composto é depois entregue aos produtores com quem trabalhamos, numa lógica de economia circular. Ou seja, temos um ciclo fechado, dentro do qual nada se perde.

Por outro lado, para limitar a nossa pegada de carbono, definimos um raio de 50 km para todos os hortofrutícolas e um limite de 500 km para outros produtos (como frutos secos, cereais ou leguminosas). Qualquer ingrediente produzido fora destes limites estaria igualmente excluído da nossa cozinha. Isto significa trabalhar sem café, cacau, banana, especiarias, côco, caju, etc, etc. Ao mesmo tempo, seria fundamental que a matéria-prima nos chegasse em recipientes reutilizáveis, para que – mais uma vez – não houvesse desperdício no processo. Aqui falamos de caixas, sacas, cubas, boiões e qualquer outro recipiente que faça sentido.

Nada nos demoveu do objectivo inicial.

Foram muitos meses de pesquisa intensiva, visitas a produtores, contactos com dezenas de entidades – tudo para encontrar resposta para todas as questões e desafios que tínhamos pela frente. Tivemos boas surpresas, de ingredientes que não esperávamos encontrar em Portugal, mas também algumas desilusões duras de ultrapassar. Em todo o caso, nada nos demoveu do objectivo inicial.

E assim abrimos a porta há três meses e meio.

Mantemos o ambiente caseiro e acolhedor que proporcionávamos até agora, à volta de uma mesa única – agora maior, com lugar para cerca de 20 pessoas – feita a partir de sobras de madeira de mesas de outros restaurantes de Lisboa. 

Continuamos a privilegiar as experiências à porta fechada, com pré-reserva, para que haja tempo para desfrutar da comida, da companhia, da troca de conhecimentos e de experiências. As datas destas experiências estão disponíveis para reserva no nosso site.

Por outro lado, também estamos abertos para almoço, de quarta a sexta, das 12 às 15h. E aí qualquer pessoa pode aparecer, sem reserva. Temos ainda a nossa despensa – com produtos criados por nós (como o pão de trigo barbela ou o semi-curado de amêndoa) – ao dispor de quarta a domingo.

Queremos inspirar outras pessoas e organizações a seguirem as nossas pisadas.

Trabalhar apenas com o que é local e sem gerar desperdício é um desafio à criatividade. Faz-nos questionar tudo à nossa volta e aprender mais sobre o que nos rodeia. Com esta aventura queremos inspirar outras pessoas e organizações a seguirem as nossas pisadas – para que juntos possamos criar um mundo mais consciente, saudável e sustentável.

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