Imitar os melhores para se encontrar o melhor em nós

Ana Caetano // Março 14, 2022
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Depois de uma pandemia assistimos a algo que é um dos piores pesadelos da humanidade: a guerra, 70 anos após o fim da última verificada na Europa. E uma das coisas que mais tem impressionado o mundo é a extrema coragem do povo ucraniano. Que força perante um inimigo que é em tudo superior: em número de militares, armamento, dimensão e experiência militar. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky tem sido unanimemente considerado como um dirigente exemplar. Quem diria que um comediante encerrava tanta força e espírito de liderança? O seu exemplo inspira muitos dos seus conterrâneos a lutar pela independência.

A imitação como processo de sobrevivência

Os modelos de mestria e de pragmatismo são grandes aliados da sobrevivência e desenvolvimento no planeta Terra. Por exemplo, um bebé gorila passa dois anos com a mãe gorila para aprender, entre outras coisas, quais as plantas comestíveis e quais as venenosas. Outros exemplos incluem os animais domésticos e, claro, nós, seres humanos. 

Assim, os nossos primeiros modelos de vida são os pais, os familiares próximos, mais tarde os professores e, mais recentemente, os influencers. O que devemos ter em mente é que a imitação faz parte da nossa sobrevivência e superação. Não é à toa que a publicidade procura associar os seus produtos a pessoas famosas que levem outros a adquirir esses mesmos produtos.

E quando não existem modelos que possamos imitar?

Um dos desafios que se pode colocar, principalmente quando somos mais jovens, é ausência, na nossa vida, de modelos que possamos imitar… Às vezes os membros diretos da família não têm as características que nos ajudam no contexto em que vivemos. 

Por exemplo, no acompanhamento de vários lusodescendentes no estrangeiro detetei um aspeto repetitivo nas suas histórias: os pais tinham imigrado para terem uma vida melhor. Sabiam trabalhar e trabalhavam muito, mas não tinham competências linguísticas ou sociais para perceberem os serviços de imigração, as reuniões de professores nas escolas ou, simplesmente, viajar nesse país desconhecendo a língua. Sentiam-se isolados, aflitos e sozinhos. Imaginem uma criança de 7 anos a fazer a tradução de português para sueco nos serviços de matrículas numa escola, entre uma funcionária austera e uma mãe que não percebia nada do que era dito. Ou uns pais que não entendiam de que se queixava o filho em França quando este tinha tudo o que precisava para se sair bem na escola e não conseguia obter bons resultados… Eles, que nada tinham tido na infância, tiveram de adaptar-se à escola… Talvez o filho fosse muito exigente ou estivesse mal-habituado. Nada disso: estes lusodescendentes apenas não podiam reproduzir os comportamentos da família num ambiente em que não faziam sentido (ser criado como católico num país luterano, por exemplo). Mas ao imitarem comportamentos de membros da sociedade em que se encontravam inseridos ouviram dos seus pais a acusação de que negavam a sua cultura de origem. Confuso, muito confuso.

Mas há outros exemplos: pais que têm formação nas áreas científicas e não percebem os filhos que escolhem as áreas artísticas, pais que proporcionaram aos filhos uma educação superior, tendo uma origem sociocultural pouco diferenciada (working class), pais de filhos portadores de deficiência ou com necessidades educativas especiais, ou prodígios… são muitos, mas mesmo muitos os exemplos. 

A Identidade vertical e a identidade horizontal

Estes conceitos são referenciados no livro de Andrew Solomon: “Longe da árvore” (este conceito é uma adaptação de um provérbio anglo-saxónico que refere que um fruto não cai longe da árvore, uma versão do nosso “tal pai, tal filho”). Ao longo de vários capítulos fala e documenta como as diferenças entre pais e filhos podem deixar um fosso em que os pais não conseguem compreender as especificidades de um filho surdo quando ouvem bem, ou os desafios colocados por uma filha anã num mundo construído para a estatura média.

Assim, não há uma identidade vertical, em que aquilo que eu sou é refletido diretamente na minha descendência. Estes filhos só conseguem ter uma noção de pertença e de identidade num grupo que partilhe as suas características e daí a identidade horizontal. O livro de Andrew Solomon reflete bastante no luto que os pais fazem de não terem o filho desejado, em como isso os desafia no ato de amar quem é tão diferente de si. Aquilo que observo nestes filhos toca noutro ponto: a culpa de não cumprirem as expetativas dos pais e de procurarem outros grupos onde se sentem mais compreendidos. Uma das coisas em que se sentem desafiados é encontrarem modelos de vida que os inspirem no seu contexto diário.

Um modelo para a vida

Alguns destes lusodescendentes começaram a falar de alguém que era para eles uma inspiração: Cristiano Ronaldo. É verdade, o jogador da bola por muitos considerado o G.O.A.T. (Greatest Of All Time e não “cabra”, que me confundiu durante algum tempo, confesso).

Alguns destes descendentes que “caíram longe da árvore” amam profundamente os seus pais, mas encontram no Ronaldo uma inspiração para o seu quotidiano. Porquê? Vejamos: 

  1. Deixaram de ver a pequenez do país como limitador de sucesso. O Ronaldo não vem de um país pequeno, mas de uma ilha minúscula no oceano Atlântico! Se ele conseguiu chegar ao topo do mundo, qualquer um consegue;
  2. Ter poucos recursos económicos não é uma restrição, mas, sim, um incentivo que aguça a vontade de trabalhar;
  3. A mãe do Ronaldo não percebe de futebol, mas percebe de amar e proteger os filhos. Mais do que frequentar as escolas certas e as atividades extracurriculares adequadas, a força do amor numa família pode ser a “poção mágica” de que precisamos;
  4. O foco no trabalho, em se ser bom naquilo que se faz, advém da força de vontade;
  5. É verdade que o Ronaldo tem um talento especial e uma boa genética que lhe permite enfrentar grande esforço físico e manter-se ao mais alto nível competitivo aos 37 anos. Mas sem trabalho, nem o talento, nem a genética têm grande utilidade;
  6. É, foi e será alvo de críticas. Jogou anos em Madrid com muitos espanhóis a não lhe perdoarem o facto de ele ser português… Recordemos um jogo importante entre Portugal e Espanha no campeonato europeu de 2016. Um dia antes a Autoridade Tributária espanhola levantou suspeitas sobre os seus impostos… inoportuno este prazo, talvez com o foco na sua destabilização. Ele marcou 3 golos e empatou o jogou. Às provocações respondeu com o seu trabalho em campo;
  7. Faz sacrifícios pelos seus objetivos, seguindo uma rotina rígida de treino, alimentação e descanso.

Estes são apenas alguns dos motivos que inspiram admiração naqueles que o escolhem como modelo de mestria. Mesmo quando falha é um exemplo de como mantém a motivação e regressa ao trabalho.

Quem escolhe imitar?

Assim, quando vejo algumas pessoas perdidas no seu caminho de vida, recordo que temos um exemplo inspirador que podemos imitar. Tal como a partir de março de 2022 vou trazer o exemplo do Volodymyr Zelensky para ilustrar que qualquer um perante condições adversas pode escolher imitar um líder ou um fraco.

Escolha criteriosamente os seus modelos e, acima de tudo, tente superá-los!

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