Violência no namoro: o que é?

Cláudia Morais // Novembro 25, 2018
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Em Portugal mais de 50 por cento dos jovens assumem que já foram expostos a comportamentos violentos no namoro. Um em cada 5 admite ter sido vítima de violência emocional. Os números são tão alarmantes quanto a constatação de que, para a maioria dos jovens, perseguir, ameaçar ou empurrar são comportamentos “normais”.

No princípio parecia perfeito. Ele fazia-te sentir realmente especial. Enviava-te 30 mensagens por dia, quase todas “só” para dizer que te amava e para te perguntar como estavas. Pelo meio também perguntava onde estavas e com quem, mas aquilo parecia-te mais uma demonstração de interesse. Quando deste conta, já não eram 30 mensagens, eram centenas, e tu já não te sentias especial. Sentias a obrigação de descrever em detalhe os sítios onde estavas e sentias medo. Medo que ele achasse que não estavas a ser totalmente sincera, medo que ele se zangasse e gritasse contigo, medo que ele te dissesse que não estavas a ser a namorada que ele esperava. Como é que isto aconteceu?

Como é que a pessoa que te fez sentir amada passou a ter comportamentos que te fazem sentir constantemente com medo e vergonha?

Tu só querias continuar a viver a história de amor que viveram juntos nos primeiros tempos e não percebeste que, quando ele te dizia coisas como “Se tu gostasses mesmo de mim, não sairias à noite com as tuas amigas”, não estava a ser querido e a mostrar os seus sentimentos. Estava a desrespeitar o teu direito de continuares a estar com outras pessoas e a tentar controlar-te. Mas, era difícil seres firme e dizeres exatamente aquilo que querias quando, depois das crises de ciúmes em que ele explodia e partia objetos à tua frente, ele voltava a parecer tão querido e tão vulnerável quando te pedia desculpas, prometia que não voltaria a fazê-lo e te fazia as mais bonitas declarações de amor. Acreditaste sempre que ele te disse que só se zangava porque tu eras especial. Convenceste-te de que ele estava a dizer a verdade quando afirmava que os ciúmes só existiam porque te amava e que, se tu gostasses mesmo dele, te preocuparias e farias o que estivesse ao teu alcance para não o veres sofrer. Percebes agora a ironia? Eras tu que sofrias com esta chantagem emocional. Eras tu que te anulavas. Eras tu que sentias a energia a ser sugada.

Já não eras a miúda feliz que cumprimentava toda a gente.

Aos poucos, foste-te afastando dos teus amigos. Primeiro, porque ele dizia que era um desperdício passar tempo com outras pessoas, depois porque ele passou a pôr defeitos em todas as pessoas à tua volta. Já não eras a miúda feliz que cumprimentava toda a gente. As tuas amigas estranharam o desaparecimento, insistiram para que te encontrasses com elas e foram desistindo de o fazer à medida que rejeitavas as chamadas ou inventavas desculpas para não estares com elas. Passaste a viver em função das necessidades do teu namorado – o teu amor – e, sem dares por isso, foste perdendo o teu sorriso. Passaste a ser a rapariga de olhos tristes que ora se sentia esperançada de que os “maus momentos fossem passageiros”, ora se se sentia envergonhada por estar a viver um amor assim, com tantos momentos duros.

Andavam sempre juntos e, à primeira vista, parecia mesmo que não queriam estar com outras pessoas. Mas, a tua realidade era outra: tu não podias ir a lado nenhum sem ele. Ele dizia-te que era por te amar, mas, na verdade, aquilo eram perseguições que te deixavam desconfortável e que serviam para te controlar.

O controlo. As manipulações.

No Instagram e no Facebook não faltavam fotografias vossas, sempre a dois. Mas, quem fazia like às tuas publicações estava longe de imaginar que tu nem sequer tinhas autorização para responder às mensagens que te enviavam. Como é que isto aconteceu? Como é que ele passou a controlar as tuas contas de e-mail? Como é que ele passou a sentir que tinha legitimidade para responder por ti no Whatsapp ou para bloquear amigos no Facebook? No princípio parecia tudo tão claro, tão lógico. “Se tu gostasses mesmo de mim…”. Ele e as manipulações. Ele e as juras de amor. E, tu foste acreditando e foste cedendo. Só querias que ele se sentisse seguro e foste tentando dar todas as provas do teu amor, sem perceberes que aquilo não eram exigências razoáveis. Eram tentativas de exercer controlo sobre ti. Eram maus-tratos. Quem ama não nos afasta das pessoas que nos querem bem.

Quem ama também não precisa de controlar aquilo que tu vestes, não te proíbe de usar calças justas ou minissaia. Tu tinhas o direito de vestir o que entendesses e, ao contrário do que ele te dizia, as tuas roupas não serviam “para engatar outros rapazes”. Isso era apenas ele a tentar que te sentisses culpada.

Não foi o amor que fez com que o teu namorado te humilhasse, te chamasse nomes ou ameaçasse publicar aquelas fotografias que tiraste só para ele. Foi sempre a vontade de te controlar, de te manter sob o seu poder.

Agora parece tudo tão claro…

Tu não foste respeitada quando disseste que não tinhas vontade de ter relações sexuais e ele te persuadiu – primeiro com chantagem emocional e depois com explosões de raiva. Tu não foste respeitada quando, ao chorares desesperada por ele se ter zangado contigo, o ouviste dizer que a culpa era tua. Tu não tiveste culpa pelas reações agressivas que ele teve. Aquela também era uma forma de exercer poder sobre ti, amedrontando-te.

O teu medo foi crescendo tanto que te afastaste até da tua família.

Os teus pais acharam que era uma fase. Afinal, a adolescência é conhecida pelo período em que os filhos mais vezes têm reações atípicas. “Vai passar”, pensaram eles, desconhecendo o teu sofrimento. Sentias-te cada vez mais triste, cada vez mais envergonhada. Tu amavas aquele rapaz e, ainda que sentisses cada vez menos esperança de que ele pudesse mudar, sabias que estavas perante um problema que não conseguirias gerir sozinha.

Um problema que não conseguirias gerir sozinha…

Quantas vezes te perguntaram se estava “mesmo” tudo bem e gritaste em silêncio “Não!” enquanto da tua boca saía um tímido “Está”? Quantas vezes tiveste medo e vergonha de contar? Quantas vezes temeste que, se o fizesses, poderias ser julgada?

A coragem necessária para procurar ajuda.

Ainda bem que o diretor da escola se lembrou de fazer aquela palestra. Ainda bem que pudeste ouvir o testemunho de uma rapariga com uma experiência tão parecida com a tua. De repente, os teus problemas ganharam um nome e havia outros rostos que tinham passado pelo mesmo. Melhor do que isso: percebeste que havia alternativas, que havia pessoas interessadas e vocacionadas para te ajudar. Percebeste que podias desabafar com alguém, mesmo que não quisesses dizer o teu nome ou o do teu namorado. Percebeste que poderias conversar com um adulto sem te sentires julgada. Percebeste que ali mesmo, na tua escola, havia outras pessoas em situação semelhante. E, deste-te conta de que os teus pais, a tua diretora de turma e a psicóloga da tua escola te poderiam ajudar. Ainda bem que confiaste, ainda bem que tiveste a coragem para falar, para dar o primeiro passo na direção do teu bem-estar.

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