Um pequeno passo dos maus-tratos a animais aos maus-tratos a pessoas

Mauro Paulino // Agosto 22, 2022
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Vários estudos têm vindo a demonstrar a relação que existe entre a violência contra animais e outros tipos de violência, nomeadamente a violência doméstica, a violência contra crianças ou quaisquer outras formas de violência interpessoal. Basta uma breve pesquisa na realidade noticiosa nacional para encontrarmos vários casos, envolvendo maus-tratos a cães, gatos, ou até mesmo outros animais, num claro contraste do que é uma relação saudável e afetuosa entre espécies.

Laços entre pessoas e animais

O vínculo entre os humanos e os animais existe desde os primórdios, mas a sua valorização é mais recente. A substituição do termo animal de estimação por animal de companhia reflete, exatamente, o papel dos animais, enquanto fonte de lazer, conforto e apoio social, bem como a importância da ligação.

Os animais de companhia têm um papel relevante ao nível da saúde física e mental, nas diferentes etapas da vida. Se estivermos a falar de um casal com filhos pequenos, saiba que a relação estabelecida entre um animal de companhia e uma criança transmite uma sensação de valorização e de bem-estar e, por sua vez, são desenvolvidas competências de socialização, no sentido da comunicação, sensibilidade social e confiança interpessoal. Também para ilustrar, se estivermos a falar de pessoas idosas, os animais ajudam a adotar um estilo de vida ativo e saudável, promovem a estimulação física e cognitiva, ajudam a estabelecer uma rotina diária estruturada, devido às refeições, às caminhadas e cuidados regulares, estimulam emoções positivas e providenciam sentimentos de proteção.

Quando o laço existente entre pessoas e animais é marcado por violência

O papel dos animais nas dinâmicas familiares dá-nos informação sobre o que está a ocorrer na família, inclusive cenários de violência. As vítimas animais, cães ou gatos, mas também pássaros, tartarugas ou coelhos, por exemplo, servem para os agressores exercitarem o gosto pela violência e praticarem essa opção com progressiva dessensibilização.

Os maus-tratos a animais parecem ser a ponta do iceberg, não só estatístico, mas também na sua relação com outros fenómenos de violência em geral. No caso de os agressores de violência doméstica que exercem também violência contra os animais, o objetivo passa por explorar o vínculo emocional que as vítimas têm com os seus animais de companhia como forma de as chantagear emocionalmente e coagir a permanecer em silêncio ou a retomar o relacionamento.

Por isso, se deve considerar que uma situação de maus-tratos a animais pode estar relacionada com outro tipo de violência familiar que já esteja a ocorrer, pode prever formas de violência futura, pode ser usada para intimidar, coagir ou controlar vítimas humanas e a ocorrência de múltiplas formas de violência aumenta a violência futura.

O que se sabe sobre quem maltrata animais?

Estima-se que os agressores de animais sejam maioritariamente do sexo masculino, surgindo as mulheres mais associadas a contextos de negligência, abandono ou acumulação. Os agressores adultos de animais têm maior probabilidade de ter um histórico de violência familiar na infância, ou ter sido expostos, direta ou indiretamente, a situações de maus-tratos a animais. Num estudo com 97 infratores, 25% dos agressores foram diagnosticados com uma ou mais perturbações psicológicas.

Os maiores níveis de crueldade animal estão relacionados com o abuso de álcool, perturbações da personalidade, jogo patológico e histórico familiar antissocial. Há também referência a níveis mais baixos de empatia e falta de preocupação moral.

Pensando mais na infância, é importante referir que existe uma relação sólida entre a crueldade infantil aos animais e traços psicopáticos precoces, assim como uma maior relação entre atos de crueldade contra animais na infância e a agressividade e atividades antissociais mais persistentes quando adultos. Por isso, caso tenha conhecimento de alguma criança ou adolescente que seja violento para com animais, poderá encará-lo como uma bandeira vermelha para que se proceda a uma intervenção especializada o mais atempada possível.

Por exemplo, numa análise de 20 atiradores em massa, identificou-se que a maioria tinha sido cruel com animais durante a infância e aqueles que tinham uma história de abuso de animais tendiam a ser mais jovens no momento da sua ofensa, comparativamente aos que não registavam histórico.

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Animais e Pessoas – O livro que motiva uma campanha de sensibilização com várias figuras públicas

Em maio deste ano, foi publicado o livro “Animais e Pessoas: Maus-tratos a animais, Link para a violência contra pessoas e Intervenção assistida”, coordenado por mim, pela advogada Sandra Horta e pelo Provedor dos Animais da Câmara Municipal de Lisboa, Pedro Emanuel Paiva, contando com o importante contributo de diversos autores. Os direitos de autor revertem para a Associação Vida Autónoma, uma instituição que acolhe pessoas sem abrigo juntamente com os seus animais de companhia.

Partindo desta obra, várias figuras públicas uniram-se em campanha de sensibilização contra os maus-tratos a animais e os benefícios da presença do animal para a saúde mental, a qual foi captada pela lente da Shots & Cuts e conta com o apoio institucional da Câmara Municipal de Lisboa, da Pactor Editora, da Mind | Psicologia Clínica e Forense, entre outras entidades. A sociedade não pode ficar indiferente a este tema.

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