Os meus filhos saíram de casa - E, agora?

Diogo Telles Correia // Agosto 31, 2018
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Nesta altura do ano, muitos dos jovens regressam às faculdades ou nelas ingressam pela primeira vez. Em muitas famílias começa a esboçar-se “O síndrome do ninho vazio”, que é uma das etapas mais desafiantes no seu ciclo de vida.

O que é o Síndrome do Ninho Vazio? 

Ocorre quando os filhos, que foram o centro do funcionamento das famílias durante cerca de 20 ou mais anos, começam a sair de casa. Uns saem porque vão estudar para longe da morada de família, e outros porque arranjam emprego e casa fora. Muitas das vezes, esta fase não é abrupta. Começa a esboçar-se na altura em que os jovens entram na faculdade e apenas se completa quando eles arranjam sítio para morar. Como sabemos, a capacidade económica para a autonomia é cada vez mais tardia e difícil nos dias de hoje, pelo que muitas vezes o síndrome do ninho vazio na sua completude ocorre atualmente mais tarde do que em tempos passados.

As 6 grandes fases do ciclo de vida de uma família: 

De acordo com Wright & Leahey, 2002, existem 6 grandes fases do ciclo de vida de uma família:

  1. Adultos jovens;
  2. O casal;
  3. Família com filhos pequenos;
  4. Família com filhos adolescentes;
  5. Ninho vazio;
  6. Família no estágio tardio da vida.

Cada uma destas fases tem os seus desafios e as suas dificuldades próprias

. Adultos jovens

Na primeira fase, o novo casal vive uma fase romântica intensa, o que serve de estímulo para que comecem romper-se os laços emocionais originais entre os filhos e os pais, e a criar-se outros novos entre o casal, e que de alguma forma funcionam como novos refúgios afectivos. Muitas vezes esta transição afectiva da família de origem para este novo elemento, que é escolhido, não é desprovida de dificuldades, manifestadas nomeadamente por parte dos pais, que podem ter dificuldade em deixar que os seus filhos “voem”.

. O casal

Na segunda fase, definem-se as regras relacionais entre os dois e destes com as famílias de origem. Há uma gestão manifesta ou subentendida dos ideais e expectativas de cada membro do casal. Tem de haver compreensão e cedências de ambas as partes porque há discrepâncias entre o que cada um idealiza e espera da relação.

. Família com filhos pequenos 

Na terceira fase, há uma descentralização das atenções da relação entre o casal, para o novo membro da família. Questões de partilha de responsabilidades, divisão de tarefas domésticas, entre outros podem levar a que cresçam atritos entre os pais, que muitas vezes não os superam, e acabam por se separar.

. Família com filhos adolescentes

Na quarta fase, novos desafios se definem em relação à personalidade dos filhos, que deixam de ser crianças. A imposição de autoridade que se tem de integrar com alguma tolerância em relação aos “novos queres” dos filhos, que começam a esboçar as suas personalidades, tornam-se questões centrais. Paralelamente esta é a altura em que os pais se aproximam da meia idade, e em que podem neles surgir as chamadas “crises da meia idade”, que correspondem a fases da vida em que muitos valores, expectativas, crenças são postas em causa e que podem também ser motivo para instabilidade relacional.

. Ninho vazio

Na quinta fase, surge então o Ninho vazio. Quando os filhos saem de casa e os membros do casal voltam a ter de se centrar em si próprios e na sua relação. Nem sempre é fácil, depois de tantos anos da vida de um casal a priorizar os seus objectivos em função dos filhos, que este seja deparado subitamente com uma casa vazia em que estão presentes apenas os dois membros do casal.  Muitos membros de casais em que os filhos finalmente se autonomizaram olham um para o outro e sentem que já não se conhecem. Tem de haver um trabalho de reformulação dos papéis e adequação a esta nova fase de vida, que difere, em muito, da última vez em que eles estavam apenas os dois em casa. Assim, nesta fase não são infrequentes o aparecimento de problemas conjugais, que nem sempre têm o melhor desfecho.

A reforma laboral é outra das questões que pode também complicar esta fase, havendo todo um espaço mental que é desocupado e que exige novos investimentos. Há vários autores que apontam maiores dificuldades para as mulheres do que para os homens nesta fase, devido a dedicações mais exclusivas destas para com os filhos (algumas mulheres dedicam-se exclusivamente à educação dos filhos, prescindindo de atividade laboral, sendo esta uma realidade mais frequente no passado ainda hoje ocorre) e também ao aparecimento da menopausa neste período.

A fase do ninho vazio embora seja na maioria das vezes vivida com naturalidade, porque os pais e filhos se adaptam a novas relações que se estabelecem após saída da casa de origem, que embora sejam menos intensas não deixam de ser satisfatórias. No entanto nalguns casos, esta fase pode acompanhar-se de um sofrimento muito profundo, podendo despoletar o aparecimento de situações de depressão grave nos pais, que muitas vezes tem de ser avaliada e tratada por especialistas em saúde mental.

. Família no estágio tardio da vida

Na última fase, os pais são confrontados com todas as questões que a velhice traz consigo, como as questões de saúde, alguma incapacidade e dependência. Passa muitas vezes a ser mais difícil organizar a vida sem algum apoio, que deverá ser prestado sobretudo pelos filhos e familiares. Assim, a qualidade de vida desta fase depende não só da capacidade de adaptação dos pais, mas também do empenho das gerações mais novas.

Assim, se conclui que, ao longo do tempo e conforme a fase que o núcleo familiar vai ultrapassando, os membros deparam-se com mudanças e desafios que podem trazer consigo algumas dificuldades de adaptação. No entanto, em geral a família vai conseguindo superar todas estas etapas com um esforço que depende não apenas dos pais, mas também dos filhos, elementos fundamentais em todo este processo.

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