Quando o tempo não cura: O que fazer com a dor que ficou

Márcia Inês Coelho // Julho 10, 2025
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Já sentiu que há algo em si que não entende completamente? Uma ansiedade que surge do nada. Uma tristeza que parece não ter razão de ser. Uma raiva súbita, quase desproporcional. Ou até uma sensação crónica de insuficiência — como se estivesse sempre a falhar, ainda que esteja a fazer o seu melhor. Muitos de nós aprendemos a justificar estas sensações com frases como “devo estar cansado”; “sou mesmo sensível”; “é só uma fase”. E às vezes é. Mas noutras, não. E se, por detrás desses estados emocionais aparentemente “sem explicação”, houver algo mais profundo — algo que nunca teve espaço para ser sentido, nomeado, compreendido? Talvez seja um trauma antigo que nunca teve tempo, lugar ou segurança para doer. Uma dor que não foi ouvida, mas que se mantém viva, a pulsar de forma invisível nas nossas escolhas, nos nossos relacionamentos, na forma como lidamos com o mundo e connosco.

Feridas invisíveis: Mas, afinal, todos temos traumas? (Spoiler: sim, de alguma forma)

Quando falamos de trauma é comum pensarmos em eventos extremos: abusos, acidentes, perdas devastadoras ou violência. E, sim, estes eventos podem ser profundamente traumáticos. Mas o trauma emocional é mais abrangente do que isso e, muitas vezes, mais silencioso.

Trauma não é apenas o que nos aconteceu, mas o impacto que isso teve dentro de nós. É o que sentimos quando algo ultrapassa a nossa capacidade de compreender, integrar ou processar. Quando nos sentimos desamparados, sozinhos, inseguros ou sem recursos para lidar com a realidade, o nosso corpo e a nossa mente fazem o que for preciso para nos proteger: dissociam, bloqueiam, congelam.

Além disso, a dor emocional nem sempre nasce daquilo que nos acontece, mas do que não acontece e deveria ter acontecido. Falamos da ausência de segurança emocional, de validação, de presença afetuosa. Falamos de crescer num ambiente onde não havia espaço para sentir, onde o amor era condicionado, onde o erro era punido e não compreendido.

Por exemplo:

  • Uma criança que chorava e era chamada de “dramática” pode crescer a acreditar que expressar emoções é algo errado;
  • Um adolescente que nunca ouviu um “estou orgulhoso de ti” pode tornar-se um adulto que vive em busca de aprovação constante;
  • Alguém que cresceu com pais emocionalmente ausentes pode desenvolver dificuldade em confiar ou criar intimidade.

Estas experiências moldam-nos de forma subtil, mas poderosa. E o mais desafiante é que, muitas vezes, tornamo-nos adultos funcionais — conseguimos trabalhar, estudar, ter relações —, mas por dentro sentimos uma exaustão profunda, um vazio que não sabemos explicar, uma insegurança constante que parece não ter fim.

E se eu não me lembrar da minha infância?

Este é um dos sinais mais comuns de que pode haver dor emocional não processada: lacunas de memória afetiva. Não se lembrar de quase nada da infância não significa, necessariamente, que nada aconteceu. Pode significar, na verdade, que houve uma necessidade de nos afastarmos da experiência para conseguirmos sobreviver-lhe emocionalmente.

Quando somos pequenos, o nosso sistema nervoso ainda está em desenvolvimento. Se crescemos em ambientes onde era preciso estar sempre em alerta ou onde não havia espaço para sermos vulneráveis, o corpo cria formas de sobreviver. Esquecer pode ser uma dessas estratégias. 

Como sabemos que há algo por digerir e integrar?

Nem sempre o trauma se apresenta como uma memória dolorosa clara. Muitas vezes, ele vive nas entrelinhas da nossa vida:

  • Na compulsão por agradar e evitar conflitos;
  • No medo de desiludir os outros;
  • No desconforto em sermos vistos ou em partilhar vulnerabilidades;
  • Na sensação constante de ter de provar valor;
  • Na dificuldade em pedir ajuda;
  • No perfeccionismo que esconde o medo da rejeição;
  • Na tendência a sabotar relacionamentos que começam a ficar demasiado próximos.

Estes comportamentos, muitas vezes normalizados pela sociedade, podem ser formas de nos protegermos da dor original. Mas são também sinais de que talvez haja algo dentro de nós a pedir cuidado, atenção e integração.

O perigo de acharmos que isso faz parte da nossa personalidade, é que viveremos sempre condicionados a fugir da dor ou a tentar preencher os vazios que ela nos causa, sem sermos capazes de compreender a sua origem, questionar os padrões que nos limitam ou oferecer a nós mesmos o cuidado que nunca recebemos. Continuaremos a reagir, em vez de escolher conscientemente. A repetir, em vez de transformar. A sobreviver, em vez de viver com inteireza.

Primeiros passos para lidar com a dor emocional

Uma ferida emocional não se trata como se trata uma dor de cabeça. Não há atalhos. Mas há caminhos. Aqui ficam alguns passos fundamentais para iniciar o seu processo:

1. Aprender a sentir — sem se afogar

Muitas pessoas cresceram a acreditar que sentir é perigoso. Que “ser forte” é não chorar, não demonstrar dor, não ser “fraco”. Mas sentir é humano. E necessário.

O primeiro passo para processarmos as nossas feridas é reaprender a estar com as nossas emoções (especialmente quando doem!), sem julgar, sem evitar, sem dramatizar. Sentir com presença, com curiosidade: O que estou a sentir? Onde sinto isto no corpo? O que esta emoção quer dizer?

Mas, atenção: sentir não é o mesmo que se afundar na dor. Por isso é que precisamos treinar a nossa autorregulação emocional: aprender a identificar emoções, nomeá-las e criar espaço interno para as acolher. Técnicas como respiração consciente, meditação, journaling (escrita terapêutica), movimento corporal ou simplesmente conversar com alguém de confiança são formas de criar esse espaço seguro.

2. Acolher as partes feridas — sem se confundir com elas

Todos temos partes nossas que ficaram presas em experiências antigas. A criança que se sentiu rejeitada. O adolescente que aprendeu a calar. O adulto que se protege, afastando-se.
Curar passa por reconhecer essas partes, dar-lhes voz e espaço, mas sem nos identificarmos completamente com elas. “Eu sinto rejeição” é diferente de “eu sou rejeitável”. Acolher essas versões com compaixão — sem as deixar comandar a nossa vida — é um gesto poderoso de maturidade emocional.

3. Restaurar gradualmente a sua integridade — crescer com a ferida (e não apesar dela!)

A dor emocional não precisa de ser transformada em algo bonito para ter valor. Mas, muitas vezes, quando é sentida e integrada com verdade, ela pode tornar-se fértil. É aí que a ferida, em vez de nos definir, passa a revelar uma força que antes estava adormecida.

Não se trata de romantizar a dor, mas de reconhecer que, ao integrarmos a ferida, ganhamos acesso a recursos internos que talvez nunca tivéssemos desenvolvido de outra forma: empatia, presença, resiliência, autenticidade, propósito.

Este processo é o que chamamos de «crescimento pós-traumático». Não se trata de apagar o passado, mas de escolher crescer a partir dele — com mais consciência, mais profundidade, mais conexão com quem realmente somos.

Um convite à coragem emocional

Este artigo não pretende dar todas as respostas — e talvez nem devesse. Porque, às vezes, o mais importante não é encontrar uma solução imediata, mas abrir espaço para a pergunta certa.

E se viver com mais leveza, mais inteireza e mais verdade for possível?

E se a dor que carrega em silêncio não for um defeito, mas um sinal de que algo dentro de si está a pedir para ser cuidado — não ignorado, não racionalizado, não ultrapassado à força?

Há dores que não gritam, mas cansam. Há feridas que não sangram, mas moldam. E nenhuma delas é pequena demais para merecer a sua atenção.

Talvez esteja na altura de deixar de sobreviver em piloto automático, e começar a viver com presença. De se ouvir com mais ternura, de se olhar com mais honestidade. Não para se consertar — mas para se reencontrar.

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O meu livro “Quando algo não está bem – Compreender o trauma e cuidar das feridas emocionais do passado” nasceu precisamente desse lugar: não como um manual de respostas rápidas, mas como um espelho gentil e um mapa possível para quem sente, cá dentro, que há qualquer coisa que precisa de ser ouvida.

É um convite à coragem emocional: A coragem de parar. De sentir. De voltar a si. E de acreditar que, mesmo com feridas, é possível recomeçar com verdade.

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