Qual a importância e consequências da extinção das abelhas?

Equipa Planetiers // Maio 22, 2019
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Se muita gente associa abelhas a insetos irritantes (e por vezes perigosos) que nos “chateiam” com os seus zumbidos nos dias de maior calor, a verdade é que as abelhas são bem mais importantes do que isso: de uma forma muito direta (spoiler alert!), a vida humana depende delas.

Como é que isso é, sequer, possível?

Sem a existência de abelhas no mundo, culturas como frutos silvestres, abacates, couves, maçãs, cebolas, pepinos, tomates, melão, uvas, amêndoas, laranjas, castanhas e até algodão (entre muitas outras) seriam impossíveis de produzir.

Porquê? Porque as abelhas e os seus enxames são os principais responsáveis pela polinização, o processo do qual grande parte das plantas depende para se conseguir reproduzir.

Boa, mas o que é a polinização?

A polinização é o processo que garante a reprodução das plantas com flores – se por um lado possibilita a produção de frutos e sementes, por outro, é um dos principais mecanismos de manutenção da biodiversidade existente no planeta terra.

Para além da reprodução, a polinização garante a variação genética, equilíbrio dos ecossistemas, produção de habitats e reprodução de muitas outras espécies.

Contudo, para que este processo ocorra, é essencial a existência de polinizadores – abelhas, vespas, borboletas, pássaros, morcegos, entre outros – que fazem o transporte do pólen entre as flores masculinas e femininas.

De todos estes, as abelhas destacam-se. São uma das espécies mais importantes na polinização e das quais todas as outras espécies dependem (incluindo a espécie humana): esta importância das abelhas levou mesmo algumas instituições, como é o caso da Earthwatch Institute, a declarar as abelhas como a espécie mais valiosa do planeta.

Na polinização, as abelhas destacam-se pela sua eficácia, competência e características favoráveis: se por um lado há abelhas que conseguem visitar 5000 flores por dia, por outro, há alguns tipos de abelha que ganham “fidelidade floral” às plantas que visitam, aumentando assim a eficácia do transporte do pólen de uma flor para a outra e a sua reprodução.

Quais as consequências da extinção das abelhas?

A importância das abelhas (tanto ecológica como para a vida humana e outras espécies) é clara e partilhada por muitos cientistas e investigadores: segundo Albert Einstein,

No dia em que as abelhas forem extintas, a humanidade apenas conseguirá sobreviver durante mais 4 anos.”

Estima-se que existam 369.000 espécies de plantas com flores no planeta e, destas, 90% dependem da polinização por insetos. Calcula-se ainda que 80% das culturas vegetais do mundo sejam polinizadas por abelhas. Com base nestes dados é fácil prever as consequências que a extinção total das abelhas teria no mundo.

A extinção ou redução destes polinizadores tem um efeito direto e negativo sobre a saúde, a fauna, a flora, a viabilidade de culturas vegetais e põe ainda em causa muitos ecossistemas, antes tidos como seguros e garantidos.

Uma extinção em grande escala resultaria em menor variedade e quantidade de alimentos, tornando-se impossível conseguir produzir alimentos suficientes para todos os habitantes do planeta.

Estima-se que 70% da agricultura global depende da intervenção das abelhas e que a produção de culturas polinizadas por abelhas esteja avaliada em 577 biliões de dólares.

Contas feitas, as abelhas são responsáveis pela polinização de 80% das culturas vegetais e de 1/3 de todos os alimentos que comemos todos os dias – esta perda seria incomportável, tanto para os seres humanos, como para as restantes espécies que habitam o planeta.

Muito para além da espécie humana, a extinção das abelhas teria repercussões extremamente negativas para outras espécies e ecossistemas.

As abelhas são responsáveis pela polinização de muitos vegetais e culturas utilizados na alimentação de gado (indústria agropecuária) mas, mais do que isso, na alimentação de espécies selvagens, ficando sem alimento grande parte dos pássaros, insetos e muitos outros animais selvagens.

Para além da alimentação, esta polinização feita pelas abelhas tem também uma importância ecológica enorme, enriquecendo ecossistemas e tornando-os mais resistentes a possíveis ameaças – sem abelhas, podemos assumir que os ecossistemas se tornassem fracos ao ponto de deixarem de existir.

Mas é assim tão preocupante a situação?

A situação é tão preocupante que já em 2013 a Comissão Europeia decidiu banir o uso de 3 agrotóxicos na esperança de conseguir ter um impacto positivo nas populações de abelhas.

Neste momento, uma em cada quatro espécies de abelhas está em risco de extinção – em algumas zonas geográficas do mundo, como na China e no Japão, já foram registadas perdas totais de colónias de abelhas.

Em algumas destas zonas já se faz polinização manual e estão a testar-se robôs autónomos e drones para substituir as abelhas no processo de polinização.

Em menos de 15 anos, 50% a 90% das abelhas no mundo desapareceram, com apicultores a relatar perdas anuais de 50%. Contudo, poucos esforços (significativos) se têm feito para proteger as abelhas que ainda nos restam.

Mas o que está a provocar a morte das abelhas?

Mais importante do que falar nas consequências da extinção das abelhas é focar nas causas e como podemos combatê-las.

São vários os fatores que estão a levar as abelhas à extinção e trata-se de um evento com tanto reconhecimento a nível mundial que até já conta com um termo técnico para o definir: “Colony Collapse Disorder”.

As principais causas da extinção das colónias mundiais de abelhas são:

  • Agricultura intensiva, desmatamento e queimadas;
  • Uso excessivo de pesticidas, agroquímicos e neonicotinóides;
  • Poluição atmosférica e alterações climáticas;
  • Desmatamento, fogos, perdas de habitat das abelhas;
  • Introdução de espécies de abelhas de diferentes localizações;
  • Doenças, pragas, parasitas e predadores às abelhas (vespas asiáticas);
  • Culturas geneticamente modificadas e défice nutricional nas abelhas;
  • Perda de biodiversidade (alimento escasso para as abelhas);
  • Extensas áreas dedicadas a uma só cultura (monocultura);
  • Exaustão e más condições de manutenção de colmeias por apicultores.

Apesar de serem vários os contribuidores para este problema, as principais ameaças apontadas pelos especialistas são o uso de Pesticidas e Agrotóxicos, Métodos de Agricultura Abusiva, Poluição e Alterações Climáticas.

O caso dos pesticidas é, de facto, preocupante e um dos mais importantes a discutir. Os agrotóxicos presentes nas plantas são absorvidos pelas abelhas quando estas sugam o néctar das flores, que é levado para a colmeia onde acabam por contaminar a cera, a própolis e o próprio mel.

Este transporte involuntário resulta no envenenamento lento das colmeias e enxames, e no enfraquecimento do sistema imunitário das abelhas, contribuindo ainda para a morte da abelha-rainha (essencial para o funcionamento eficaz e organização da colmeia).

Para além dos agrotóxicos, as abelhas são um dos insetos com menos tolerância a poluição e alterações climáticas – estudos indicam que um aumento da temperatura média do planeta de 1,8ºC a 2,6ºC seria fatal para os seus enxames, colmeias e colónias.

O que se pode fazer?

São várias as formas de combater a extinção e desaparecimento das abelhas, dando-lhes a importância que merecem.

O primeiro passo para contribuir para a conservação das abelhas é opores-te ao uso de pesticidas e optares por produtos biológicos (em todas as áreas do consumo).

O segundo é adotar um estilo de vida menos poluente e mais ecológico, promovendo a biodiversidade, sustentabilidade, atenuando as alterações climáticas que já se fazem sentir.

De uma forma mais prática, e no caso de teres um jardim ou canteiro, é importante garantir a diversidade de plantas e inclusão de flores amigas das abelhas – manjerico, funcho, malva, manjerona, orégãos, tomilho, hortelã, alecrim, margaridas ou girassóis, por exemplo – podes também colocar um recipiente com água para que as abelhas se possam servir ou construir casas que estas possam usar.

No caso de não teres jardim próprio, é sempre bom participar em iniciativas de promoção dos espaços verdes nas cidades e incentivar a inclusão de flores silvestres nos mesmos.

Ainda no que toca à conservação das abelhas, é importante promover os pequenos produtores – incluindo os pequenos (e responsáveis) produtores de mel e as empresas que os apoiam.

Estes constroem colmeias que servem de casa às abelhas e conseguem gerir os enxames de uma forma consciente e responsável, através de métodos de extração não destrutivos ou prejudiciais – acima de tudo, com respeito à espécie.

Devo deixar de consumir mel?

As opiniões contradizem-se e os estudos não parecem conclusivos em relação ao facto de consumir mel ser prejudicial para as abelhas – na realidade, as abelhas produzem o mel como uma forma de armazenar comida para o inverno e retirar-lhes esse “fruto” pode resultar numa maior exaustão.

Contudo, ao optar por produtores locais e conscientes, que utilizam métodos responsáveis e mantêm o equilíbrio das colmeias, podes ter a confiança de que o mel que estás a consumir não prejudicará as abelhas que o produziram.

Portanto, se queres continuar a consumir mel e a usufruir dos seus benefícios, opta por apicultores com colmeias junto a cultivos de produção biológica, que promovam parcerias com pequenos agricultores, em ambientes seguros e que estimulem a biodiversidade e florações em épocas distintas, garantindo alimento natural às abelhas em qualquer época do ano.

Esta é a conclusão: as abelhas são uma das espécies mais importantes do mundo e é a partir delas que nós sobrevivemos. É uma responsabilidade de todos conservá-las, respeitá-las e mantê-las fortes.

Por isso, da próxima vez que estiveres num piquenique de verão e uma abelha começar a irritar-te com o seu zumbido, trata-a bem, deixa-a fazer o seu trabalho e agradece-lhe – é provável que os alimentos que estejas a comer nesse momento tenham sido (re)produzidos por ela.

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