Aquela terra fica longe. Galgam-se quilómetros para lá chegar na esperança de que a estrada se encurte e o casario se abra ao longo do morro que aparece ao virar da curva larga.
Ali todos se conhecem, são a família que se abriga debaixo do mesmo tecto se a tempestade ameaça e que grita no terreiro se a desavença é brava e ofende a honra de alguns.
E a curiosidade? Essa transborda de todas as janelas mesmo em dias de canícula se o viajante é desconhecido. Rapidamente há que dar conta de quem se instalou nos seus terrenos e o passeio faz-se agora estrada acima com um “boas tardes” a conter outras perguntas.
Naquela fiada de casas que anunciam o caminho de terra batida, lá ao fundo era a última, a casa do senhor Francisco que de imediato se apresentou. Mãos calejadas, tez curtida pelo tempo que a idade não o fazia trancar em casa e a horta precisava do seu olhar atento, da cura feita a horas com a sabedoria de quem sempre tratou a terra por tu.
Nada perguntou sem antes ter oferecido as suas “novidades” a rebentar naquela terra dura que a sachola amaciava com a sabedoria que os anos lhe haviam acrescentado.
Vivia sozinho que os filhos tinham procurado outros ofícios e a mulher doente não recuperara de um inverno mais bruto.
Ao entardecer sentava-se nas escadas a contar estórias antigas que lhe povoavam a memória…E se precisava de batatas ou alfaces e as cebolas “a vizinha veja o que lhe falta” que ali naquela courela que amanhava havia que desse para ambos.
O vizinho Francisco sem nunca se ter queixado da sua solidão gostava daquele fio de conversa que desenrolava enquanto a navalha lhe trabalhava nas mãos a descascar a fruta mastigada com a vagareza da idade.
Há uns anos voltei lá e a última casa da aldeia estava fechada. O vizinho Francisco deve ter-se despedido da vida a sorrir. Foi assim que o conheci. Foi assim sempre que a conversa cruzava o caminho para a horta nos entardeceres lentos que acontecem nos sítios onde o alcatrão não chegou até à última casa.