O valor das bibliotecas

Fátima Lopes // Outubro 11, 2022
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Eu cresci a frequentar bibliotecas e a sentir-me fascinada com a variedade de autores, temas e conteúdos. Das coisas que mais me custou na minha infância, no período em que vivi em Moçambique (de 1977 a 1980), foi a ausência de bibliotecas nas escolas que frequentei. Como quase não existiam livros para comprar, quando me vinha parar um exemplar qualquer à mão, lia-o vezes sem conta. Cresci a amar as bibliotecas, daí este artigo. 

Todos sabemos que as bibliotecas têm cumprido um papel importantíssimo na aquisição de conhecimento, mas o mundo mudou.

Para compreender melhor a atual situação das bibliotecas, estive à conversa com Fernanda Salgueiro Bandeira. Bibliotecária desde 1991,  foi na Biblioteca da Universidade Lusíada, que Fernanda começou a sua vida profissional. Dez anos mais tarde, integrou o quadro da Câmara Municipal de Lisboa como coordenadora do Centro de Documentação do Departamento de Acção Social. Em 2011, transitou para a Rede de Bibliotecas de Lisboa, passando pela Biblioteca Palácio Galveias e a Biblioteca de Belém, onde exerceu, a partir de Abril de 2016, a função de coordenadora. Atualmente coordena a Biblioteca Palácio Galveias e, por inerência, o Grupo de Trabalho dos Serviços Públicos da Rede de Bibliotecas de Lisboa.

À conversa com Fernanda Salgueiro Bandeira, Coordenadora da Biblioteca Palácio Galveias e do Grupo de Trabalho dos Serviços Públicos da Rede de Bibliotecas de Lisboa:

1. Com a chegada do digital, o que mudou no papel das bibliotecas?

A mudança está naturalmente implícita quando deixamos métodos tradicionais em favor de novos métodos e as bibliotecas não são exceção. 

À biblioteca tradicional associamos normalmente o papel, mas este não foi o seu primeiro suporte. A argila, o papiro e o pergaminho compõem o processo evolutivo do livro, substituídos pelo papel, devido às limitações físicas inerentes aos materiais de suporte anteriores.

O aumento exponencial da informação e as limitações espácio temporais que o papel apresenta, conduziram, por sua vez, à necessidade de arranjar formas alternativas de armazenamento, com acesso célere e intuitivo, que se traduziram no aparecimento do suporte digital e no início de uma nova era da informação.

A biblioteca, sob pena de ruir perante o avanço tecnológico, acompanhou este processo, adaptando, inovando e comunicando o acesso a novas formas de pensar, ensinar e aprender. Ouvindo as pessoas e a comunidade envolvente, colaborando proactivamente com os parceiros, de forma a perceber quais as necessidades informacionais. Fazendo, em suma, um percurso de adaptação, nem sempre à mesma velocidade do processo evolutivo, mas ainda assim, incontornável e inquestionável.

O digital forçou a que se redesenhasse a biblioteca tradicional, sendo o foco não no livro, mas nas pessoas. O depósito de livros, a leitura presencial e o empréstimo, deixam de ser a definição por excelência da biblioteca, que passa a estar centrada nas pessoas, nas suas necessidades e nos seus gostos. Assim a biblioteca, ao contrário do que alguns preconizaram, foi forçada, não a fechar portas, mas a abri-las totalmente e a canalizar toda a sua atuação naquele que é o seu bem mais precioso: as pessoas. 

2. O que tem sido feito para continuar a cativar os leitores?

Esta é nos nossos dias uma das maiores exigências com que o profissional da informação se depara. Inovar e recriar sistematicamente, são as palavras-chave para cativar e fidelizar utilizadores, ao mesmo tempo que deve assumir o papel de provedor da informação, como garantia de uma informação segura e fiável.

Centrando-se no utilizador, deve desenvolver um processo sistemático de curadoria de informação e de conteúdos, garantindo qualidade e acesso a dados confiáveis. Deve, para isso, acompanhar as mudanças estruturais que ocorrem a nível mundial e que influenciam ou podem influenciar diretamente os leitores ou potenciais leitores. Em suma, fazer com que as bibliotecas se assumam como eixos estratégicos da mudança e da inovação, integrando o leitor de uma forma participada nos projetos que pretende implementar, pois só auscultando a sua opinião, poderá ir de encontro das suas reais necessidades.

3. As tertúlias e as mesas redondas são algumas das formas de lembrar que as bibliotecas são casas de conhecimento vivo e em permanente atualização?

Não só, mas também. As bibliotecas são cada vez mais espaços híbridos, com valências múltiplas, estando muitas alocadas em espaços históricos, carismáticos e emblemáticos. As bibliotecas são, por isso, locais de bem-estar e de bem acolher todas as pessoas. Isto faz com que sejam um lugar de livre circulação que a todos acolhe e um lugar de eleição para os mais diversos tipos de eventos.

Aos tradicionais lançamentos e apresentações de livros, foram-se juntando as tertúlias e mesas redondas, as conferências, workshops, teatro, dança, bailado, música clássica, ópera, fado, música ligeira, cinema, exposições, instalações virtuais, clubes de leitura, atividades de escrita criativa, português para estrangeiros, mediação de leitura, gaming, cursos de literacia digital, atividades ao ar livre (nas bibliotecas com espaço exterior), yoga, jardinagem, oficinas da memória, numa infinidade e abrangência de possibilidades que os leitores e outros públicos possam conceber ou solicitar.

4. Muitos autores fazem questão de lançar os seus livros nas bibliotecas. Qual acha que é a razão principal?

A biblioteca, apesar da sua multiplicidade de valências, ainda é o local por excelência de encontro com o livro, e, como tal, com os seus leitores. Lançar um livro na biblioteca é estar com o livro, com os livros e próximo do leitor.

5. Como diretora de uma Biblioteca, quais são os maiores desafios?

Como profissional da informação e da documentação, os desafios com que hoje somos confrontados testam diariamente as nossas competências como agentes sociais de mudança. Assim, importa definir estratégias, que permitam criar espaços de aprendizagem, de memória digital, colaborativos ou em parceria, que sejam sustentáveis e permitam redesenhar ou reinventar serviços, adequando equipamentos e infraestruturas aos tempos digitais que vivemos.

6. E o que gostaria que público de leitores percebesse?

Que percebessem o papel ativo e preponderante que podem e devem ter nas bibliotecas, participando nos processos de criação.

Que identificassem o potencial que a biblioteca tem, que vai muito além da pesquisa, da consulta ou do empréstimo de um livro.

Que soubessem que o que podemos oferecer, ultrapassa muito a ideia estereotipada da biblioteca de há algumas décadas atrás.

Que as bibliotecas são presente e futuro, com um olhar no passado.                                 

Que as bibliotecas são espaços neutros, seguros, abertos, acolhedores, amigáveis  e pertença das comunidades.

Que as pessoas fazem a Biblioteca.

7. Relativamente às nossas crianças e jovens, o que podem as bibliotecas fazer para despertar o prazer da leitura e do conhecimento?

Independentemente do desenvolvimento que as bibliotecas possam ter ao acompanhar o processo evolutivo, a leitura será sempre um valor subjacente e intrínseco à aprendizagem em geral e não só à aprendizagem meramente académica. Por isso, é imperativo manter vivo o incentivo à leitura, desde o primeiro momento da criança, apelando à fantasia e ao sonho para desenvolvimento da imaginação, criado pelas histórias.

A mediação de leitura nas Bibliotecas, contribui para esse desenvolvimento, permitindo que a criança encontre no livro uma porta aberta para experienciar o mundo.

Nota: Fotografia destaque por Verónica Silva

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