O que é o otimismo tóxico?

Cláudia Morais // Agosto 28, 2021
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otimismo tóxico
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“Vai ficar tudo bem”; “É preciso é ter pensamento positivo”; “Não te preocupes, tudo se resolve”; “Há problemas piores.” – Quando é que a vontade de animar alguém se transforma em otimismo tóxico?

Há tempos uma paciente contava-me quão duro tinha sido não ter contado com o apoio da mãe durante o período em que sofreu de ataques de pânico. Quando os primeiros episódios surgiram, fez centenas de quilómetros para estar perto de casa, das “suas” pessoas e do acesso aos cuidados de saúde que acreditava serem os melhores para si. A mãe tentou desdramatizar a situação dizendo-lhe para ter calma e paciência porque “tudo se resolve”. A minha paciente fez psicoterapia durante mais de um ano e nos primeiros meses também foi seguida em psiquiatria. Durante esse tempo, voltou à cidade onde trabalhava e nas visitas a “casa” nunca ouviu uma pergunta que mostrasse curiosidade em relação ao acompanhamento que estava a receber ou em relação à evolução do seu estado. Quando fez o desmame da medicação, partilhou a notícia com a mãe, que respondeu: “Vês, eu não disse que não havia motivos para preocupações?”. Esta mãe fez o melhor que conseguiu para ajudar a filha, mas a verdade é que esta filha precisava de muito mais. Precisava de se sentir vista, ouvida e amparada. Precisava de colo, de demonstrações genuínas de interesse pelo seu estado emocional e de espaço para falar sobre emoções desagradáveis.

O que é o otimismo tóxico?

Todos conhecemos os benefícios do otimismo. Há várias décadas que a psicologia positiva tem demonstrado que o humor, o foco nas coisas boas da vida, as práticas de gratidão e o cultivo da esperança promovem o nosso bem-estar, sobretudo em momentos de crise e de adversidade. Na maior parte das vezes em que nos sentimos desconfortáveis, tristes ou desesperançados sabe-nos bem ouvir que a vida não acaba ali, que há escolhas que podemos fazer para melhorar o nosso estado e que o futuro pode ser muito mais risonho do que nos parece naquele momento.

Lembro-me de há uns anos ter recebido um telefonema de uma outra paciente que, em lágrimas, tentava marcar uma primeira consulta e explicava-me que tinha acabado de perder um irmão. Acolhi a sua tristeza, o seu desespero e contei-lhe que conhecia aquela dor. Eu também tinha perdido um irmão há uns anos. Com empatia e compaixão, disse-lhe que estava disponível para ajudar e que reconhecia que naquele momento era muito difícil ter esperança de voltar a viver (e não apenas sobreviver), quanto mais de voltar a sorrir. Mas quis deixar-lhe uma mensagem de esperança, não apenas baseada na minha experiência de vida, mas também. Felizmente, a minha paciente já voltou a sorrir e está hoje muito mais capaz de sonhar com o futuro. Mas foi preciso tempo e espaço para a dor. Foi preciso amparo, colo, interesse genuíno.

Quando tentamos saltar etapas, desvalorizando ou desdramatizando situações difíceis e refugiando-nos em clichês otimistas, corremos o risco de a pessoa que tentamos confortar se sentir mais desamparada do que nunca. O que é que pode ser pior do que sentirmo-nos tristes, desesperados, ansiosos ou amedrontados? Passar por estes sentimentos sem podermos processá-los falando abertamente sobre eles.

O otimismo tóxico ou positividade tóxica é uma tentativa de animar o outro que coloca sobre os seus ombros a obrigação de se manter otimista e/ou a proibição de desabafar sobre o que corre mal.

Quando a pandemia começou, fomos inundados de imagens de arco-íris com a frase “Vai ficar tudo bem” em todas as línguas. A intenção era a melhor, mas hoje todos sabemos que, para muitas famílias, não só não ficou tudo bem, como o confronto constante com esta mensagem tornou-se uma fonte de dor. Como é que alguém se sente depois de perder o pai, a mãe, um irmão ou uma pessoa amiga e se cruza com um destes arco-íris? Como é que alguém se sente quando, depois de um ataque de pânico, em que pensou que ia morrer, ouve apenas “Tudo se resolve. Tem calma”? Incompreendido(a). Desamparado(a). Revoltado(a).

A importância de acolher os sentimentos

Felizmente, ouvimos falar cada vez mais de saúde mental e da importância de darmos voz aos nossos sentimentos, independentemente de serem agradáveis ou desagradáveis. A investigação mostra-nos de forma inequívoca que a vulnerabilidade anda de mãos dadas com o nosso bem-estar e a nossa felicidade. Estar triste, com medo ou com ansiedade é tão humano como estar feliz, otimista ou em paz. Mostrar os sentimentos desagradáveis não é motivo de vergonha, não é dar “parte fraca”. Na verdade, quanto mais nos criticamos por termos sentimentos desagradáveis, mais os agravamos, mais nos enfraquecemos. Quando escolhemos acolher TODOS os nossos sentimentos e dar-lhes voz, procurando o colo, o amparo e o interesse genuíno de quem está capaz de os dar, sentimo-nos mais fortes e percebemos que é possível estar em paz apesar da dor, que é possível sentir otimismo e tristeza e, sobretudo, damo-nos conta do poder imensurável das relações.

Somos seres profundamente relacionais. Precisamos uns dos outros e somos infinitamente mais felizes quando construímos relações afetivas de proximidade, baseadas no respeito, na empatia, na solidariedade. Como é que reagimos quando sabemos que alguém de quem gostamos muito está a sofrer? Julgamos aquela pessoa? Rotulamo-la de fraca? Pelo contrário, a maior parte de nós acolhe esse sofrimento, literalmente, com um abraço e com palavras que mostram solidariedade. É exatamente esse acolhimento que podemos oferecer a nós mesmos, aceitando os nossos sentimentos sem os julgar.

E se alguém nos tentar animar com alguma forma de otimismo tóxico? O que é que podemos fazer? 

Primeiro, talvez possamos começar por aceitar que, de uma maneira geral, as pessoas fazem o melhor que conseguem e não têm a intenção de nos prejudicar. Os nossos pais e mães também têm uma bagagem afetiva e muitas vezes não aprenderam a falar sobre sentimentos. Não significa que não se importem connosco ou que desconsiderem o nosso sofrimento de forma consciente.

Depois, podemos fazer uma de duas coisas: tornar ainda mais claro aquilo que sentimos e aquilo de que precisamos (“Eu sei que não fazes por mal, mas quando tentas animar-me com estas frases, sinto-me triste/só/desamparado(a). Preferia que me desses espaço para falar sobre o que sinto e que fizesses algumas perguntas de vez em quando”); ou procurar ajuda junto das pessoas que sabemos ou intuímos que sejam mais capazes de empatizar e acolher os nossos sentimentos.

Mesmo quando nos sentimos desesperados e desesperançados, há alguém – que pode ser a pessoa menos provável – que pode ouvir-nos e ajudar-nos a olhar para o futuro com colo e otimismo.

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