O mito da flexibilidade no Yoga

Vânia Duarte // Julho 10, 2020
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“Não faço Yoga porque não sou flexível.”

Confesso que já perdi a conta às vezes que ouvi esta frase de tantas pessoas que começaram a falar comigo sobre Yoga e acabaram a praticar nas minhas aulas. 

Não condeno nem critico esta afirmação, na verdade entendo-a perfeitamente porque eu própria há 8 anos atrás quando comecei também pensei o mesmo, que não tinha capacidades para fazer aquelas posturas maravilhosas que via na internet e é por isso que hoje, como professora de Yoga, procuro acolher todas as formas de pensamento e ajudar cada pessoa a perceber por si o quanto todos nós podemos e conseguimos praticar Yoga

Comecemos pelo início: O que é o Yoga?

Yoga para mim é saúde, é estar vivo, estar presente e consciente das nossas polaridades enquanto seres humanos. É uma prática física que pode ser mais ou menos exigente dentro daquilo que tu quiseres que seja e não porque alguém te diz que tens de fazer este ou aquele ásana. Saber ouvir o corpo e saber dizer “preciso de parar” é provavelmente das coisas que explico logo a qualquer aluno que comece a praticar comigo. A outra é que a única coisa que precisa de ser flexível é mesmo a tua cabeça para saberes lidar com o ego que tantas vezes vem ao de cima numa prática de Yoga (ou, na verdade, em qualquer outra) que te peça para mexer no desconforto. 

O que é isto da flexibilidade então e porque é que é somos tão fixados nela quando se trata de Yoga?

Quando recuamos até aquele que se calcula ter sido o início do Yoga – cerca de 5.500 anos atrás – percebe-se que naquela época os poucos ásanas que existiam serviam essencialmente para preparar o corpo para um longo tempo sentado a meditar. Acredita-se que algumas das posturas sentadas que nos chegam nos dias de hoje tenham vindo da necessidade de encontrar formas mais confortáveis para se estar sentado bastante tempo, mas quando olhamos para os registos do que era o Yoga nesta época, e em outras que se sucederam, percebemos que efetivamente a única flexibilidade exigida era mesmo a mental. 

O Yoga como o conhecemos hoje, com esta forma mais física, é algo relativamente recente, com cerca de 100 anos, e foi-nos trazido por Sri Tirumalai Krishnamacharya, considerado o pai do Yoga moderno e que ensinou alguns dos grandes nomes que acabaram por criar linhagens de Yoga muito conhecidas hoje em dia como Pattabhi Jois, Iyengar, Indra Devi (primeira mulher professora de Yoga) e Desikachar. Todos estes alunos estudaram com o mesmo professor e desenvolveram práticas completamente diferentes mostrando aqui que um yogi não pode, nem deve ensinar todos os seus alunos da mesma forma, pois todos são únicos tal como a prática de Yoga

Os tempos evoluem, a forma do homem viver também e o Yoga, como filosofia que está em constante adaptação, também se transformou, em especial com a sua chegada ao Ocidente, onde o ritmo e estilo de vida são tão diferentes e é exatamente nesta altura que começamos a ver um Yoga mais físico, com ásanas mais desafiantes, onde a suposta flexibilidade é necessária. 

O caminho até chegar a uma determinada postura de Yoga é tão importante como a própria postura.

Ora é fácil ficarmos rendidos a uma fotografia bonita numa qualquer rede social onde alguém faz uma postura difícil, mas aquilo que o Yoga nos mostra é que o caminho para lá chegar é tão importante como a própria postura. O Yoga mostra-nos a importância da total consciência da respiração, pois é ela que nos leva para as posturas e não a força ou a mente. Na verdade é quando mais tentamos chegar às posturas por via da força que acabamos por nos magoar. 

Praticas Yoga porquê?

Se olhar para mim como praticante de Yoga percebo que sou tudo menos flexível. Sim acabei por ganhar alguma flexibilidade com os 8 anos de prática, mas não tenho um físico magro e esguio, e tenho joelhos fracos fruto de algumas lesões fora do Yoga que me fazem ter de adaptar alguns ásanas. Portanto, teria tudo para achar que o Yoga não era para mim. Mas, a verdade é que com o passar dos anos e de muitos momentos pouco Zen no meu tapete, fui percebendo o meu porquê. 

O porquê de praticar Yoga, o porquê de querer e precisar de esticar o meu tapete todos os dias e o porquê de querer continuar. E, quando aqui cheguei, percebi que nada disto tinha a ver com fazer uma postura bonita para uma foto, mas, sim, com querer conhecer-me mais, com aprender a estar comigo com o meu lado luz e sombra e, acima de tudo, a viver mais em presença e menos em piloto automático. Quando aceitei isto deixei de me importar se na aula de Yoga era a pessoa mais ou menos flexível, se fazia ou não a postura que a colega do lado estava a fazer para me importar mais em ouvir o meu corpo. 

É isto que pergunto muitas vezes aos meus alunos, qual o seu porquê. Porque estão ali. Porque querem ser flexíveis. Porque querem aquela postura. Porque me escolheram como professora. Questionamento numa sociedade que nos pede para aceitar tudo como certo é muito mais difícil do que colocar o pé atrás da cabeça. E isto é Yoga. 

O que é a verdadeira flexibilidade?

Todos os ásanas existem por uma razão e compete a um professor guiar uma prática construtiva que te vá enraizando cada vez mais e que te permita expandir em total consciência. Mas aquilo que mais gosto de partilhar com os meus alunos é que ao final do dia não somos melhores pessoas por ficar em equilíbrio em cima das nossas mãos, mas ao darmos essas mãos a quem mais precisa vivemos verdadeiramente o estado de Yoga, onde a flexibilidade está na capacidade de nos desapegarmos de crenças, mitos e certezas absolutas

Namasté.  

Nota: Fotografias por Margarida Pestana 

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