Não escolhi a dança

Henrique Amoedo // Abril 29, 2019
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Lembro-me de ver belos espetáculos.

Espetáculos que deixaram as suas marcas em mim e que, sem dúvida alguma, ajudaram na composição do todo que eu sou.

“Ubu, Pholias Physicas, Pataphysicas e Musicaes” pelo Teatro do Ornitorrinco, sob a direção de Cacá Rosset, na passada década de noventa – ainda em São Paulo – foi um deles. Foram inúmeras as idas ao teatro para assistir ao Ornitorrinco em Ubu (de Alfred Jarry), que estreou em Paris nos idos de 1896, na comemoração dos 100 anos da sua estreia.

Numa dessas ocasiões, o Pai Ubu (Cacá Rosset), ao receber o público na fila de entrada para a sala de espetáculos pergunta: “São irmãs ou compraram o vestidinho na mesma liquidação?!” Ríamo-nos imenso enquanto aguardávamos para entrar na sala de espetáculos. Esta frase acompanha-me até hoje. Apropriei-me dela em alguns momentos onde a sua utilização é inevitável.

A capacidade de nos aproximarmos de alguém, de alguma personagem, através das histórias que estão a ser contadas em cena é uma das magias do teatro.

“Donana” de Ronaldo Ciambroni, por exemplo, é uma peça de teatro que “atormenta” as minhas memórias até hoje. Durante a encenação, a nossa empatia com aquela senhora, viúva e a viver sozinha, vai aumentando. Rimos e choramos imensas vezes. Emocionamo-nos. Temos raiva em alguns momentos.

Passaram-se muitos anos (com certeza mais de trinta) desde que conheci essa italiana que emigrou para o Brasil, através da sua bela, e por vezes difícil, história de vida.

No final, quando ela deitada no chão nos diz: “a lucidez só me vem agora que perco a consciência” é como se de um murro no estômago se tratasse. Uma forte e real emoção está associada a este momento, na minha memória.

Ainda não perdi a esperança de tê-la por cá, perto de nós. “Donana” fala de uma realidade tão próxima de todos nós que o desejo de a ter por cá mantém-se. Um dia quem sabe conseguimos trazer esta já ítalo-brasileira até Portugal. Quem sabe… não dizem que o sonho comanda a vida?!

Com a dança as coisas passaram-se de uma outra forma.

Sempre a vi de forma distante, não sei precisar o que acontecia, mas talvez fosse algo que não me atraía muito. É possível, sim, dizer que havia uma enorme lacuna entre mim e a dança.

A mais remota lembrança que tenho da minha incursão pelo universo da dança acontece numa atividade escolar, numa “Feira de Artes” onde integrei um grande grupo que apresentou uma coreografia para uma ou duas das músicas do álbum “The Wall”, dos Pink Floyd.

Foi bom “estar entre os mais velhos” é a minha grande lembrança deste momento. Da coreografia, da experiência, nada. Não recordo absolutamente nada.

Depois, já na universidade, aproximei-me um pouco mais deste universo. As aulas eram interessantes, apesar de só estarem destinadas à turma feminina. Eu, quando podia, fugia e ia assistir a algumas aulas.

O professor de dança agradecia e o de futebol mais ainda, porque eu não estaria por lá para atrapalhar. Naquela altura ainda tínhamos disciplinas para “meninos” e “meninas”. Belos tempos os que vivemos hoje. Há conquistas, já consolidadas, que têm grande importância.

Foi a dança que me “atropelou”.

E foi neste contexto, no universitário, que a dança me “atropelou”. Fui colhido por um “comboio” que tinha (ainda tem) a força de uma grande cascata a meio do curso de um rio.

Vi uma apresentação da Companhia de Dança Renascer, das Casas André Luiz. Em cena duas intérpretes. Uma professora e a sua aluna, com paralisia cerebral, num dueto que para mim foi arrebatador.

Foi o meu primeiro e real encontro com a dança. Ali tive a certeza, apesar de todos os questionamentos internos, que a dança e a deficiência fariam parte da minha trajetória profissional.

Descobri que o impacto daquela cascata a meio do rio na minha vida seria enorme. Tive medo pois sabia que seria o início dum percurso onde as correntezas daquelas águas me levariam por caminhos nunca antes por mim percorridos.

Muitos anos depois, já em Portugal, sou novamente “atropelado”.

Desta vez, diferentemente da primeira em que fui colhido por um “comboio”, aconteceu com uma “nave espacial”.

A “nave” caiu muito próximo de nós (na Ilha da Madeira) e a onda de choque fez com que parasse na nossa sala de dança um pequeno ser irrequieto, agitado e com uma energia fora do comum. Corria, saltava, gritava… fazia de tudo, menos dançar!

Não sabia lidar muito bem com aquele “extraterrestre” nas aulas de Dança Inclusiva do Dançando com a Diferença e a minha proposta foi, já naquele limite onde não sabia mais o que fazer, para dançarmos só os dois no final da aula, desde que houvesse calma e atenção naquele dia.

Deu certo e no final veio a pergunta: “Vamos? Agora, temos que dançar!”

Nem eu acreditava no que tinha acontecido e muito menos podia prever o que aconteceria depois.

No leitor de CDs, sim, ainda eram muito utilizados, uma música tocava. Improvisávamos, os nossos corpos ora se tocavam, ora se distanciavam, os nossos olhares se cruzavam e conseguíamos manter uma conexão constante. Como se estivéssemos a jogar às escondidas, este momento fez com que mergulhássemos no que estava escondido dentro de nós e uma grande cumplicidade começou a ser gerada.

Nascia ali um dos símbolos mais fortes da dança em que acredito, a icónica Menina da Lua, interpretada por Bárbara Matos.

Uma dança que aproxima, ensina e transforma.

Uma dança que dá mundo, independência e responsabilidade.

Uma dança que ao mesmo tempo pode formar bailarinos e pessoas.

Boas pessoas!

Eu não escolhi a dança.

Hoje sei que fui por ela escolhido.

Dancem sempre!

Nota: Fotografias por Júlio Silva Castro.

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