Macrobiótica na primavera

Daniela Ricardo // Março 21, 2024
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A Macrobiótica assenta os seus princípios na observação da Natureza. Usa este conhecimento para explicar os processos fisiológicos do corpo humano, percebendo que existe uma correspondência entre o que se passa ao nível micro e ao nível macro. O que acontece na Natureza (macro) tem um impacto directo em todos os seres vivos (micro), o que nos inclui a nós seres humanos.

Cada estação do ano encerra, em si mesma, uma energia muito própria. 

Se no inverno a tendência é a quietude e o recolhimento, a primavera exibe-se como uma fase de mudança, crescimento e expansão vertical. A primavera é o início da expansão da vida após o período de hibernação. 

A Macrobiótica ajuda-nos a entender como nos devemos alimentar de acordo com o que acontece na natureza que nos rodeia. 

Ao adaptar a nossa alimentação e hábitos de vida aos acontecimentos climáticos que ocorrem consoante a estação do ano e o local onde vivemos, podemos acompanhar os processos fisiológicos que ocorrem naturalmente no nosso corpo. Assim, obtemos um maior equilíbrio, uma melhor adaptação ao meio e, com isso, mais saúde e energia.

Em cada estação há alimentos que crescem e amadurecem naturalmente e nos oferecem exactamente o que precisamos naquele local e naquela época do ano. 

A teoria das 5 transformações (ou 5 elementos), que vem da medicina e da filosofia chinesa, considera a influência do que comemos na nossa saúde e relaciona cada ciclo natural a um tipo de alimentação e hábitos. A primavera, segundo as 5 transformações, é regida pela energia árvore, um tipo de energia ascendente e que cria o movimento de crescimento em direcção ao céu.

Cada estação do ano, possui também um conjunto de órgãos que são afectados directamente pela energia da estação. 

O fígado e vesícula biliar são os órgãos que estão em destaque na primavera, e aos quais devemos dar uma atenção extra. A energia árvore além de regular o fígado e a vesícula biliar, regula a actividade dos ligamentos, músculos e tendões. O estado geral do nosso corpo, mostra sempre algo mais. É curioso notar que quando existe uma debilidade neste elemento e/ou alguma questão nestes dois órgãos, naturalmente sentimos mais cansaço, rigidez e debilidade muscular. 

As emoções também são uma parte integrante da nossa natureza e reflectem também o estado do nosso corpo.  

Ao fígado e vesícula biliar está associada a emoção raiva, que pode manifestar-se como irritação suave ou como algo severo, depende do nosso estado. 

A primavera é caracterizada por uma explosão de energia (que esteve a hibernar) que não pede licença para se manifestar e, nesse sentido, devemos preparar-nos para nos deixarmos levar por ela. Isso significa que estar em saúde nesta altura do ano é deixar fluir a criatividade, o crescimento e a renovação, no entanto, caso nos encontremos numa situação menos favorável, podem surgir emoções como a raiva e a frustração que são características da energia árvore e estão associadas aos órgãos em destaque. Estas emoções têm nelas a expressão do dinamismo desta estação e podem ser elas mesmas o gatilho para levarmos a cabo mudanças na nossa vida. O ideal não é camuflar ou esconder estas emoções, mas, sim, direcioná-las para serem vividas da melhor forma e em harmonia com a estação. Ajustar a nossa alimentação e estilo de vida podem ajudar nesse propósito.

Alimentação na primavera

De acordo com a Teoria das 5 Transformações, o sabor característico da energia árvore é o ácido, que pode ser usado como forma de harmonizar a energia desta estação. Por exemplo, uma pessoa que esteja a atravessar uma fase de maior frustração com episódios de grande irritabilidade deverá utilizar alimentos mais ácidos para, assim, reduzir o crescimento não harmónico da energia árvore.

O sabor picante (característico da energia Metal – outono) pode também ser aqui utilizado para permitir que a árvore se possa expandir e crescer quando tal não acontece. Imaginemos, por exemplo, uma pessoa muito indecisa, não consegue tomar decisões e que, por isso, se sente frustrada. Neste caso, fará sentido a introdução de alimentos ou ervas de sabor picante para assim “espicaçar” a árvore e permitir que esta se expanda e avance.

Os alimentos com um sabor ligeiramente ácido e às vezes amargo têm muita afinidade com o fígado e a vesícula biliar. Em quantidades moderadas tonificam estes órgãos estimulando, por exemplo, a absorção dos alimentos, a contracção muscular e até a circulação sanguínea. A ingestão deste tipo de alimentos ajuda a dissolver as gorduras e favorece a limpeza e tonificação do fígado, assim como activa o trabalho da vesícula biliar, melhorando a digestão.

Alimentos ligeiramente ácidos/amargos são, por exemplo, a alcachofra, chicória, endívias, citrinos (limão, etc.), ameixa umeboshi.

Um hábito que devemos adquirir nesta altura do ano é a de ingerir alimentos verdes diariamente. 

Os alimentos ricos em clorofila ajudam a purificar e regenerar o fígado, como são exemplo o aipo, os espinafres, as acelgas, as couves, a rúcula, o alho francês, o feijão verde, os brócolos.

Nos vegetais de crescimento vertical é importante comer todas as partes. Por exemplo, a parte verde do cebolinho, da cebola, do alho francês e do aipo. Estes são vegetais expansivos, que representam na perfeição a energia ascendente da primavera e a sua parte verde dá-nos o vigor que caracteriza esta época do ano. Alguns deles também possuem toques picantes que estimulam movimentos rápidos e actividades externas.

A primavera é a época ideal para enfatizar o consumo de germinados. 

Estes representam o período de máxima vitalidade e são um ingrediente específico para desbloquear um fígado muitas vezes congestionado por alimentos densos consumidos durante o inverno ou durante todo o ano. No final deste artigo encontras uma receita de como fazer os teus germinados em casa. É uma técnica muito simples e que pode fazer a diferença nas nossas vidas.

As ervas frescas e silvestres, preferencialmente colhidas na hora, dão a centelha primaveril que precisamos para nos activar, graças às suas qualidades medicinais digestivas, purificantes, antioxidantes e desintoxicantes, pelo que o seu consumo é fortemente aconselhado. Plantas como hortelã, salsa, orégãos, alecrim, dente-de-leão, manjerona, espargos selvagens, alhos selvagens, trevos e borragem devem coroar o prato dando-lhe um toque fresco e de vida natural selvagem.

No que respeita a cereais, a cevada, o trigo e o centeio são os mais aconselhados.  

A cevada é um cereal purificante (limpa e tonifica o fígado), o trigo e o centeio são cereais refrescantes. O trigo germinado é uma forma extraordinária de renovar o sangue. O trigo, a espelta ou o centeio na forma de pão germinado oferecem uma forma purificadora de comer algo semelhante ao pão, mas sem criar estagnação ou tensão no fígado. 

Quanto às leguminosas, a ervilha é a leguminosa mais indicada para a primavera pela sua leveza e facilidade de digestão e o feijão mungo pelo seu carácter purificador.

As frutas da estação são ácidas, cheias de vitaminas e com qualidades purificantes, como são exemplo os morangos, as nêsperas, os damascos, as cerejas, as ameixas.

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Devemos evitar alimentos densos e muito gordurosos, como queijos curados que contêm muita gordura e sal criando acumulações duras; frituras, assados, carnes e enchidos, alimentos muito salgados e condimentados, que obstruem a energia do fígado e dificultam sua renovação. Evitar também produtos de panificação, especificamente farinhas e gorduras (massas, doces, biscoitos) que também criam estagnação. 

Com o aumento da temperatura poderemos começar a pensar na introdução de saladas e alimentos mais crus e frescos, no entanto, há que fazê-lo pouco a pouco uma vez que é este tipo de alimentos em excesso poderão introduzir demasiado frio no corpo, desacelerando processos e tornando-nos menos activos.

Relativamente às formas de confecção dos alimentos, devemos optar por cozinhados mais ligeiros que no inverno. A cozedura deve ser mais arejada e revigorante, mas ao mesmo tempo leve. O ideal é começar a descobrir a panela, a energizar os pratos adicionando mais água e ar e aplicando tempos de cozimento mais curtos com chama mais alta. Desta forma cozinharemos parcialmente os alimentos e deixaremos uma parte semi-crua. Usar menos quantidade de sal em geral, para permitir que os órgãos se abram e relaxem. Assim, a cozinha de eleição será salteada, cozida a vapor, escaldada e crua (em pequenas porções e dependendo da constituição da pessoa).

4 Hábitos benéficos na primavera:

  1. Não comer à noite. O fígado funciona e renova-se à noite. Quando jantamos tarde e demais sobrecarregamos o fígado e ele não consegue realizar adequadamente o trabalho nocturno de limpeza e regeneração, assim como de purificação do sangue. Uma prática muito benéfica e simples é não comer nada no mínimo 2 a 3 horas antes de dormir, e estar a dormir profundamente a partir da meia-noite. Desta forma, permitimos que o fígado e a vesícula biliar se regenerem durante a noite e oferecemos a nós próprios um sono realmente reparador e regulador, que será perceptível na forma como nos sentimos no dia seguinte;
  2. Comer menos. Quando comemos demais, a tendência é sentirmo-nos mais cansados ​​e sem energia, porque estamos a sobrecarregar o aparelho digestivo e o fígado. Comer demais dedica muita energia à digestão e pouca energia a outras funções restauradoras. Apenas tentando comer menos, notaremos uma grande diferença;
  3. Caminhar.  A primavera é a altura de retomar ou iniciar o hábito de caminhar durante pelo menos meia hora em zonas naturais. Isto lembrar-nos-á do renascimento da natureza e de nutrir a nossa energia árvore. Esse hábito oxigena o nosso sangue, ajuda a acalmar a mente e activa os movimentos de limpeza do fígado. Provavelmente, se começarmos o dia a caminhar será mais fácil continuar a cuidar de nós mesmos durante o resto do dia;
  4. Destralhar e limpar. Esta é a altura de fazermos uma “limpeza ao armário” e eliminar o que já não interessa. São o que podemos chamar de fazer as famosas limpezas de primavera.  Podemos fazê-lo de forma literal com as roupas que já não usamos, por exemplo, mas também podemos transportar esta ideia para a nossa vida e assim permitir a entrada de novos caminhos, novas oportunidades e novas perspectivas. É necessário criar espaço para o crescimento e para a renovação.

Estas são algumas ideias de como nos podemos harmonizar com a energia da primavera e assim sentirmo-nos em equilíbrio, com mais saúde e vitalidade. De forma a começar já esta primavera com novos hábitos, que fazem a diferença, segue a receita de como fazer germinados em casa.

Germinados – O que são e como fazer?

Os alimentos germinados são sementes que brotaram para dar início à formação da planta, são por isso uma fonte de excelência da energia árvore a que precisamos para nutrir o fígado e a vesícula biliar. Quando consumidos nesta fase fornecem nutrientes como proteínas, fibras, vitaminas e minerais importantes para o organismo, e são de fácil digestão para o intestino.

Podemos germinar imensas sementes, deixo aqui alguns exemplos: feijões, ervilhas, grão-de-bico, lentilhas com casca, sementes de brócolos, sementes de agrião, sementes de rabanete, alhos, quinoa, trigo sarraceno, linhaça, sementes de abóbora e de alfafa. Enfim… existem um sem número de opções para germinar.

Ingredientes:

  • 3 colheres de sopa da semente, cereal ou leguminosa escolhida;
  • Água.

Modo de preparação: 

  • O primeiro passo é colocar as três colheres de sopa da semente ou do grão escolhido numa tigela, ou frasco, de vidro e cobrir com água;
  • Cubra a tigela com um pano limpo e deixe as sementes de molho por 8 a 12 horas, num local escuro;
  • Despeje a água em que as sementes ficaram de molho e lave as sementes sob água da torneira;
  • Coloque as sementes num frasco de vidro de boca larga e tape a boca do frasco com uma gaze presa com um elástico;
  • Coloque o pote inclinado num escorredor de modo que o excesso de água possa ser eliminado. Lembre-se de manter o frasco num local fresco e de preferência à sombra;
  • Passe as sementes por água de manhã e à noite (nos dias quentes é aconselhável a fazê-lo pelo menos 3x/dia). Não se esqueça de manter o frasco de vidro inclinado para escorrer o excesso de água;
  • Após aproximadamente 3 dias, as sementes começam a germinar e já podem ser consumidas.

O tempo de germinação varia de acordo com factores como o tipo de semente, a temperatura local e a humidade. Em geral, as sementes estão com sua potência máxima e podem ser consumidas logo que sinalizam e germinação, que é quando um pequeno broto surge da semente.

Dica: Quando usados em sopas, guisados ou outros pratos quentes, deve-se adicionar os grãos germinados apenas no fim da cozedura, para evitar a perda de nutrientes devido às altas temperaturas.

Vive consciente!

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