Tirar férias para ajudar

Helena Tirapicos // Junho 9, 2018
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Vivi em São Sebastião da Giesteira, uma freguesia rural do concelho de Évora, até atingir a maioridade. A minha família assume-se como católica e a verdade é que não consigo separar aquilo que tenho aprendido enquanto católica, daquilo que sou e faço.

Fazer o bem sem olhar a quem 

Tenho imagens da infância que me remetem para a ideia de “fazer o bem”, mas não me lembro de nenhum familiar em específico que fizesse aquilo a que chamamos voluntariado. No entanto, foi a minha avó paterna que sempre me incutiu a importância de estar atenta às necessidades dos outros, de ser prestável, de ajudar os idosos a carregar os sacos, de visitar quem estava doente e todas aquelas coisas que fazem parte do dia-a-dia e que também são mais fáceis de fazer numa comunidade pequena, onde todos se conhecem, como era o caso.

Aos 10 anos, entrei para o agrupamento de escuteiros da minha paróquia e comecei a ouvir falar da boa acção diária. Foi quando senti que aquilo que já tinha interiorizado, tinha agora mais uma razão para ser concretizado com um maior compromisso.

As primeiras situações de voluntariado

Era uma miúda quando, juntamente com o meu agrupamento, fiz as primeiras campanhas do Banco Alimentar contra a fome, aos sábados e domingos de manhã. Mas, acho que a primeira experiência que me marcou mesmo foi quando me convidaram para fazer voluntariado em Fátima, na peregrinação de Agosto, devia de ter uns 12 ou 13 anos. Era a mais nova do grupo e não me foi atribuída nenhuma tarefa complexa. Mas, era uma “peça do puzzle” e tinha de dar o meu melhor para que tudo corresse como era suposto no apoio dado aos peregrinos no “lava-pés”.

Solidariedade acima de tudo 

Já fiz um pouco de tudo. Fiz voluntariado com idosos e com crianças, com jovens e adultos com necessidades especiais, voluntariado na natureza e em zonas de incêndios, e em tarefas de apoio administrativo.

Participo nas campanhas pontuais do Banco Alimentar (tanto em porta de loja como no armazém), já fiz voluntariado na área da animação, num Centro Social e Paroquial, já prestei apoio aos peregrinos de Fátima algumas vezes, já fui voluntária na Juventude Hospitaleira (movimento juvenil ligado aos Irmãos de São João de Deus e às Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus) e na Associação Escutar, já participei em actividades de limpeza de florestas no âmbito do projecto “Limpar Portugal” e prestei auxílio às populações afectadas pelos incêndios de Castanheira de Pêra e Penedo em 2017.

No entanto, talvez o mais indicado seja dizer que o voluntariado não faz parte do meu dia-a-dia, mas as acções solidárias essas, sim, fazem.

Assumo-me como uma “menina da aldeia” e quando vou à minha terra são muitas as pessoas que me entregam sacos com roupas que já não servem aos filhos ou a outros familiares e isto porque sabem que eu faço chegar aqueles bens a quem mais precisa. Já perdi a conta às viagens que fiz com o carro cheio até ao tecto, com roupas, artigos para bebés e até utensílios de cozinha.

“Lena, ando a pensar numa coisa e tu és a pessoa certa para fazer isto comigo.”

Os incêndios do ano passado foram uma monstruosidade. Não tendo formação na área de saúde (física e /ou mental), tinha decidido que só iria para a zona de Pedrógão quando as pessoas começassem a esquecer-se que fazia falta ir para lá ajudar. Acho que o voluntariado funciona como tantas outras coisas na nossa vida, e, normalmente, quando é novidade (ainda que tenha na origem uma tragédia) todos querem ir ajudar. Por isso, enquanto a tragédia está mais viva na memória e as notícias ainda abordam o assunto a toda a hora, existe sempre alguém para ajudar. Depois esquecem-se, naturalmente. E, eu queria ir nesta segunda fase porque achava que seria mais necessária.

Porém, em Julho uma amiga da minha mãe telefonou-me. “Lena, ando a pensar numa coisa e tu és a pessoa certa para fazer isto comigo”, disse-me. Explicou-me que queria ir à zona centro dar o seu contributo na recuperação após os incêndios e que como eu me “mexia bem” nestas coisas do voluntariado, pensou logo em mim.

Lembrei-me de um amigo que tinha ido para Castanheira de Pêra logo na semana do incêndio, perguntei-lhe com quem tinha estado no terreno, ele passou-me as informações necessárias e foi assim que tive o primeiro contacto com a ONG Médicos do Mundo e, mais tarde, conheci a Missão Esperança.

O cenário que já tínhamos visto nas televisões era ainda mais doloroso ao vivo. 

Do primeiro fim-de-semana que passei em Castanheira de Pêra, acho que vou sempre lembrar-me do nó na garganta e do silêncio que se fez no carro, quando começámos a chegar à área ardida. Quilómetros e quilómetros de floresta queimada, uma mancha negra até onde os nossos olhos conseguiam alcançar… O cenário que já tínhamos visto nas televisões era ainda mais doloroso ao vivo.

Dos vários momentos que me marcaram em Castanheira de Pêra, lembro-me do dia em que mobilámos a casa de um senhor que nos mostrou um sorriso gigante quando o quarto ficou pronto, lembro-me da alegria genuína de uma senhora a quem entregámos um aspirador, da forma sentida como um miúdo agradeceu a mobília que entregámos na sua “nova” casa, lembro-me das lágrimas de uma senhora que dizia que Deus não queria que a filha tivesse morrido…

É terrível saber que podia ser eu a ter a vida virada do avesso, numa questão de minutos, como aconteceu com tantas famílias na região centro do nosso país. E, é também por me sentir grata por ter sido poupada aos incêndios, que faço questão de dedicar algum do meu tempo a quem passou por esta situação. Feliz ou infelizmente, o trabalho não me tem permitido ir lá tanto tempo como desejava, mas quando vou tento estar lá a 100%. E, só depois de contactar directamente com as pessoas que viveram de perto esta tragédia é que se percebe que o negro da paisagem é muito idêntico à tristeza e ao sofrimento que interiormente trazem consigo… Cabe-nos a nós, que fomos poupados, levar um pouco de atenção, de carinho, de força braçal e vontade de (re)erguer paredes e vidas. E, é incrível (e chocante ao mesmo tempo) ver que, praticamente 1 ano depois dos incêndios, ainda há tanto por fazer.

As férias ganharam um novo sentido 

Quando consegui marcar férias em Outubro do ano passado e em Fevereiro deste ano, voltei à Médicos do Mundo e, pelo meio, levei um grupo de 9 amigos comigo, num fim-de-semana, no passado mês de Novembro. Como em Março comecei a trabalhar aos fins-de-semana, não tenho conseguido deslocar-me a Castanheira de Pêra e ao Penedo tantas vezes quanto gostava. Mas, estou ansiosa por lá voltar e, se tudo correr como previsto, voltarei ainda este mês.

Costumo dizer que tenho a minha formação académica, mas o meu coração bate mesmo é pela área social. E, gosto muito de pessoas. Considero-me uma pessoa “de pessoas”. Há quem seja “de flores”, “de animais”, “de cinema”… eu acho que sou de pessoas. Percebi isto muito cedo e noto mesmo que preciso de ter algum equilíbrio entre o que faço “por obrigação” e a(s) minha(s) área(s) preferida(s) / de conforto.

Quando comecei a fazer voluntariado nas férias escolares, muitas vezes era uma desculpa que tinha para passar mais uns dias fora de casa, confesso. Mas, depois de começar a trabalhar, noto que fazer voluntariado nas férias é uma opção muito mais consciente, e também um bocado mais exigente ao nível da gestão do cansaço físico.

Eu continuo a fazer voluntariado para poder contribuir de alguma forma para, pelo menos, 1 dia ou até mesmo 1h melhor para alguém. E, ainda que a minha motivação enquanto estudava, algumas vezes não fosse assim tão altruísta, a verdade é que sempre, e desde sempre, que disponibilizo o meu tempo para alguma actividade de voluntariado, procuro sobretudo estar ali e desligar tanto quanto possível “o chip”.

​O que me motiva são as pessoas e o sentido do “serviço”. Aprender algo com as suas histórias de vida, poder conversar ou simplesmente estar. 

Já disse que sou uma pessoa “de pessoas” e é isso que me leva a fazer sobretudo voluntariado com e para pessoas. Gosto muito de poder partilhar experiências e histórias de vida. Gosto de estar e ouvir atentamente. Até porque no voluntariado tenho aprendido que aquela ideia pré-concebida meio cor-de-rosa que temos de mudar o mundo a fazer coisas grandes, não faz assim tanto sentido… As coisas grandes são as coisas pequenas. São as coisas que são mesmo necessárias, ainda que não se vejam, como, por exemplo, um abraço ou apertar a mão de alguém que se sente só; Ou separar roupas num pavilhão de manhã até à noite – como me aconteceu na primeira vez que estive em Castanheira de Pêra.

Tenho aprendido que para ser uma boa voluntária tenho de estar literalmente ao “serviço” – e isso implica ser humilde e entender que qualquer tarefa que me seja solicitada é importante para o todo. E, se pensar em sentimentos, quando faço voluntariado sinto-me agradecida e mais realizada. Não há nada como aquele cansaço físico do fim de um dia em que nos dedicamos a uma causa, mas temos a consciência plena do “dever” cumprido.

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