Espécies invasoras em Portugal

Hélia Marchante e Elizabete Marchante // Maio 2, 2024
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Há plantas e animais que vieram de fora e estão a invadir o nosso território e trazem mais prejuízos que benefícios.

Com os dias solarengos e mais horas de luz, sabe bem sair de casa e aproveitar o contacto com a natureza. Seja um passeio pelo parque, pelo jardim, uma caminhada na floresta ou à beira mar, estamos sempre rodeados por animais, plantas e outros seres vivos. Mas já parámos para os observar? Sabemos de onde vêm? Que nomes têm? Percebemos que há muitos diferentes? Que alguns estão por todo o lado e outros são mais raros? Todos reconhecemos uma girafa, chamamo-la pelo nome e sabemos que existe naturalmente em África, mas não a vamos encontrar em Portugal quando saímos à rua. O mesmo tipo de reconhecimento acontece com uma parte dos animais carismáticos “grandes e fofinhos”. No entanto, no caso das plantas, muitos de nós veem apenas “verde”, sem distinguir se são espécies diferentes (os cientistas até cunharam o fenómeno como “cegueira vegetal”), muito menos sabemos dar-lhes nome ou ter a perceção se sempre existiram em Portugal ou não. No caso dos animais mais pequenos e discretos não é muito diferente. Mas, de facto, muitas das espécies que nos rodeiam vieram de outros países e continentes e não teriam qualquer hipótese de chegar até nós sem a ajuda do Homem, seja essa ajuda intencional ou acidental.

De onde são originárias as espécies que vemos ao nosso redor?

Muitas espécies sempre cá estiveram – são nativas ou autóctones – mas outras há que vieram das mais variadas regiões do mundo. Por vezes, os nomes que lhes damos sugerem de onde vêm. As batatas e as ervas-das-Pampas vieram da América do Sul, as mimosas e os eucaliptos da Austrália, o lagostim-vermelho-da-luisiana e o girassol da América do Norte, a nespereira e a vespa-asiática da Ásia, os trevos-azedos e a melancia de África, a palmeira-das-canárias das canárias, o siluro da Europa Central, o caranguejo-azul do Atlântico Oeste. Temos em Portugal espécies de todos os cantos do mundo. Às espécies que são originárias de outros territórios e foram introduzidas em Portugal, há muito ou pouco tempo, chamamos exóticas.

As espécies exóticas são um problema?

Não necessariamente. Muitas delas permitem que tenhamos a qualidade de vida que temos atualmente, com a diversidade de alimentos que comemos, as madeiras que utilizamos, as plantas que embelezam os nossos jardins e arruamentos ou os animais que vemos no jardim zoológico ou na capoeira. A maioria fica “quieta” nos locais onde as plantamos ou semeamos, no caso das plantas, e não tem capacidade para se reproduzir e multiplicar sozinha, sem a nossa ajuda. Trazem muitos benefícios! Mas, há uma parte das espécies exóticas que se adapta muito bem ao novo território, começa a reproduzir-se sem ajuda do Homem, afasta-se dos locais onde foi introduzida, atinge grandes densidades e promove impactes negativos a vários níveis – essas são espécies exóticas e invasoras e, essas sim, são um problema!

Qual o problema das espécies exóticas que são invasoras?

Num relatório de 2019 da Intergovernmental Platform on Biodiversity and Ecosystem Services (IPBES) sobre a biodiversidade, as espécies invasoras foram identificadas como uma das principais causas de perda de biodiversidade em termos globais1. Homogeneízam as paisagens e tiram-lhes a diversidade. Queremos deixar um mundo assim para as gerações futuras? Mais recentemente, um relatório da mesma Plataforma, de setembro do ano passado, dedicado às espécies invasoras2, analisou toda a informação disponível sobre invasões biológicas a nível global e concluiu que estas espécies são uma grave ameaça não só à natureza, mas também às pessoas e à qualidade de vida. Os resultados são alarmantes. Mais de 3500 espécies são invasoras em diferentes regiões da Terra. Estas espécies estão relacionadas, de forma direta ou indireta, com 60% das extinções de espécies a nível mundial, os custos globais anuais destas espécies (em 2019) ultrapassavam já os 423 mil milhões de dólares (e são assumidamente subestimados). Apesar de muitas das espécies atualmente invasoras terem inicialmente sido introduzidas com algum propósito, e, portanto, também têm efeitos positivos, mais de 80% dos impactes destas espécies nos serviços dos ecossistemas e na boa qualidade de vidas das pessoas são negativos. Mas que impactes são estes? Além de serem uma ameaça à biodiversidade e modificarem os ecossistemas e seus serviços, as espécies invasoras afetam profunda e negativamente a economia, a segurança alimentar e hídrica, a saúde humana e as identidades culturais, etc..

Em Portugal, o cenário não é diferente. Os exemplos são muitos e ilustram claramente os impactes a diferentes níveis. Comecemos por exemplos de plantas.

A acácia-de-espigas (nome científico: Acacia longifolia, da Austrália) cobre vastas extensões das dunas litorais substituindo e ameaçando muitas espécies nativas, alterando os ciclos de carbono e de nutrientes, e destruindo o equilíbrio dos ecossistemas dunares.

A conteira (Hedychium gardnerianum, da Ásia) é uma das espécies mais frequentes nas ilhas dos Açores, forma áreas densas e impenetráveis, que impedem o desenvolvimento de vegetação nativa e degradam os ecossistemas naturais.

A erva-das-Pampas (Cortaderia selloana, da América do Sul) expande-se rapidamente, com sementes dispersas pelo vento; além de ser uma ameaça à biodiversidade nativa, prejudica a segurança rodoviária, impossibilita a utilização de terrenos onde invade e é um problema grave em termos de saúde humana já que o seu pólen é alergénico e ocorre no fim do verão/início de outono, uma altura do ano em que poucas gramíneas estão em flor em Portugal, pelo que acrescentou um novo pico de alergias nas nossas agendas.

O jacinto-de-água (Pontederia crassipes, da América do Sul) cobre totalmente o espelho de água em grandes extensões de rios, ribeiras, canais, lagoas e outras massas de água impossibilitando a utilização da água para agricultura (por exemplo, arrozais), navegação, pesca, recreio ou rega, além de destruir o habitat de muitas espécies, diminuindo a diversidade de fauna e flora nativas.

A mimosa (Acacia dealbata, da Austrália) é das espécies de plantas invasoras mais disseminadas na parte continental do território, é uma séria ameaça à biodiversidade, além de promover alergias em humanos, ser promovida pelos incêndios e ter impactes também económicos, já que invade áreas utilizadas para silvicultura ou mesmo agricultura. A sanguinária-do-Japão (Fallopia japonica, da Ásia) forma extensos tapetes fechados que impedem o desenvolvimento de outras espécies de plantas, particularmente em áreas ribeirinhas, mas o seu crescimento vigoroso provoca também danos avultados em infraestruturas construídas, como calçadas, canalizações, estradas ou muros. 

Mas também há muitos animais invasores. O siluro ou peixe-gato-europeu (Silurus glanis, da Europa Central) é uma ameaça para a biodiversidade, por exemplo, no rio Tejo, mas também para a pesca profissional e para a gastronomia regional. O periquito-de-colar (Psittacula krameri, da África tropical e sul da Ásia) está presente principalmente em Lisboa, mas também noutras cidades, e, além de barulhentos, competem com as espécies nativas pelos mesmos locais de nidificação, e podem competir por alimentos com outros animais. A tartaruga-da-Flórida (Trachemys scripta, da América do Norte) preda e compete com as espécies nativas, e pode contribuir para a dispersão de doenças e parasitas que podem afetar as populações nativas de cágados e outra biodiversidade aquática, e até mesmo os humanos. A vespa-asiática (Vespa velutina, da Ásia) é um predador de outros insetos, impactando negativamente as comunidades de polinizadores nativos, inclusive as populações da abelha do mel, onde a predação pode levar a prejuízos económicos; causa alarde social, apesar de a sua picada, ao contrário do que por vezes se pensa, só se tornar potencialmente perigosa se a vítima for alérgica e desencadear um choque anafilático. O visão-americano (Neovison vison, da América do Norte) preda várias espécies nativas, compete com carnívoros nativos como o toirão (Mustela putorius) ou a lontra (Lutra lutra) e consegue formar híbridos com o visão-europeu estando a pôr em risco a espécie. 

E haveria muitos mais exemplos, centenas deles, entre plantas, animais e outros organismos no continente e nas ilhas3. No global, muitos destes impactes refletem-se em impactes nos serviços que os ecossistemas nos prestam e em termos económicos, tanto a nível de prejuízos causados pelas espécies como pelos custos muito avultados da gestão e controlo das mesmas.

Os problemas são tão graves que existe legislação dedicada às espécies invasoras desde 1999, o que reflete bem o reconhecimento do problema desde há mais de duas décadas4

No entanto, as invasões biológicas continuam a ser desconhecidas de uma grande parte da população, apesar de os cidadãos poderem ter um papel relevante quer na prevenção das invasões biológicas e na mitigação dos seus impactes, se estiverem alerta para o problema, quer no seu agravamento, se desconhecerem esta ameaça e promoverem espécies invasoras.

Para diminuir o desconhecimento e aumentar a sensibilização dos cidadãos sobre invasões biológicas, desde 2020, é organizada em Portugal a Semana sobre Espécies Invasoras5

No ano seguinte esta iniciativa estendeu-se a Espanha e desde aí realiza-se anualmente nos dois países. 

Este ano, a Semana sobre Espécies Invasoras: Portugal e Espanha – #SEI2024 realiza-se de 4 a 12 de maio e é promovida pela Rede Portuguesa de Estudo e Gestão de Espécies Invasoras – Rede InvECO, associada à SPECO, pela plataforma INVASORAS.PT, pelos projetos LIFE COOP Cortaderia  e LIFE INVASAQUA e pelo Grupo Especialista em Invasiones Biólogicas. Aos promotores juntam-se numerosas Entidades/ Associações/ Grupos informais, entre municípios, escolas, associações ambientais e similares, entidades de investigação e ensino superior, projetos, entre outros. Cada entidade organiza de forma independente uma ou várias atividades, de forma a aumentar a visibilidade e dar projeção à temática das Invasões Biológicas. De formas diversas e complementares, pretende-se contribuir para aumentar a sensibilização sobre as invasões biológicas em prol da Conservação da Biodiversidade e do Restauro dos Ecossistemas.

Entre ações de controlo, Bioblitzs, campanhas nas redes sociais, exposições, formações, palestras e webinares, percursos para mapear espécies invasoras, há muito por onde escolher de norte a sul, passando pelas ilhas. Algumas atividades são organizadas para públicos-alvo particulares, como escolas ou colaboradores das entidades, mas no geral há muitas atividades abertas ao público. Consulte o mapa e participe nas atividades que mais lhe interessar.

Mas o que pode cada um de nós fazer para prevenir e mitigar os impactes das espécies invasoras?

Há muitas pequenas e grandes opções que podem fazer a diferença.

Primeiro há que apostar na prevenção. 

  • Aprender a reconhecer as espécies invasoras e NÃO as utilizar. Não só porque com isso se previnem os muitos impactes negativos que podem causar, mas porque é interdita a detenção, cultivo, criação, comércio, introdução na natureza ou repovoamento de espécies incluídas na Lista Nacional de Espécies Invasoras (Decreto-Lei n.º 92/2019), todos os exemplos referidos acima. Há muita informação disponível online, por exemplo, em https://invasoras.pt/ no caso das plantas. 
  • Sempre que possível, preferir espécies de plantas autóctones como ornamentais.
  • Adotar medidas de biossegurança/ boas-práticas de limpeza e desinfeção (entre outras) para diminuir a dispersão de espécies invasoras. É muito fácil transportar e disseminar espécies invasoras através de sementes ou fragmentos agarrados ao calçado, roupa, equipamentos, solos e outros produtos, pelo que há que evitar ao máximo sermos nós os vetores de dispersão.
  • Muito cuidado com animais de estimação. NUNCA libertar peixes de aquário, pássaros de gaiola, tartarugas, gatos, etc.. Muitos conseguem sobreviver na natureza e é assim que começam novas invasões. Adicionalmente, não deitar fragmentos de plantas para o ralo após lavar aquários – muitas plantas aquáticas reproduzem-se por fragmentos e facilmente chegam a cursos de água e sobrevivem, tornando-se invasoras.
  • Planear cuidadosamente onde depositar plantas exóticas removidas de jardins e espaços verdes – muitas sementes e fragmentos sobrevivem e podem começar novos focos de invasão.
  • “Passar palavra” sobre a problemática das espécies invasoras.
  • Viajar leve – quando for viajar, não levar ou trazer organismos vivos.

Por outro lado, para as espécies que já estão presentes no território há que ajudar a mitigar os seus impactes.

  1.  https://www.ipbes.net/global-assessment
    ↩︎
  2. https://onet.ipbes.net/ias ↩︎
  3. Ver Lista Nacional de Espécies Invasoras e Listas da Madeira e Açores associadas à legislação referida no ponto abaixo. ↩︎
  4. Atualmente, está em vigor o Decreto-Lei n.º 92/2019 no continente, o Decreto Legislativo Regional n.º 15/2012/A nos Açores e o Decreto Legislativo Regional n.º 17/2023/M na Madeira, e o Regulamento EU n.º 1143/2014 a nível Europeu. ↩︎
  5. Após o sucesso da Semana Nacional sobre Espécies Invasoras 2020, que decorreu apenas em Portugal, de 10 a 18 de outubro de 2020, a SEI passou a realizar-se em Portugal e Espanha desde 2021. A Semana Ibérica sobre Espécies Invasoras 2021 decorreu de 29 de maio a 6 de junho e contou com a realização de 175 atividades, organizadas por 138 Entidades. No ano seguinte, de 21 a 29 de maio, decorreu a Semana sobre Espécies Invasoras 2022: Portugal e Espanha (#SEI2022), que contou com 257 atividades organizadas por 228 entidades aderentes. A #SEI2023 decorreu de 13 a 21 de maio e contou com a participação de 254 entidades, que organizaram 282 atividades. ↩︎

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