Deixem os pais serem pais

Inês Afonso Marques // Março 19, 2021
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serem pais
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Queridas mães,

(Pois é… Uma carta para as mães no Dia do Pai.)

Desculpem-me algumas mães a quem estas palavras poderão fazer menos sentido. Estas palavras são particularmente dirigidas a mães superprotetoras que, sem intenção e sem se darem conta, não permitem que os pais sejam pais e participem ativamente na vida dos filhos. 

Na origem da superproteção costuma estar algo de muito nobre: um amor incomensurável pelos filhos e o desejo de lhes proporcionar o melhor. E o que alimenta a superproteção? 

Habitualmente receios: medo de que se magoem, medo de que sejam rejeitados, medo de que não tenham acesso às melhores oportunidades, medo de que outros cuidadores façam de uma forma diferente da sua, medo de deixar outras pessoas assumirem o controlo… E como se procuram dominar estes medos? Habitualmente, com controlo aumentado. Controlo sustentado na crença de que “só eu serei capaz de cuidar de forma verdadeiramente adequada do meu filho”. Neste enquadramento, níveis elevados de controlo, podem levar a que o pai vá progressivamente sendo afastado da equação, com tudo o que de potencialmente nefasto isso possa acarretar, nomeadamente na satisfação em relação à parentalidade e na relação entre pai e filho…

Ele não sabe escolher a roupa para o nosso filho.”

“Ele não sabe como é que ele gosta de adormecer.”

“Ele brinca de uma forma tão diferente da minha.”

“Ele não dá banho da mesma maneira que eu.”

“Ele não percebe que tem de haver uma hora para tudo.”

“Ele não conseguiria dar conta do recado.”

“Ele não tem tanta paciência como eu.”

“Ele não tem jeito para perceber o que se passa quando há uma birra.”

E os exemplos poderiam continuar… 

Mas, haverá uma verdade única ou uma forma exclusiva de cuidar bem e dar resposta às necessidades diversas de uma criança? E se nunca tiver oportunidade de fazer, saberá algum dia saber fazer? Terá oportunidade de conhecer verdadeiramente o filho?

3 Dicas para deixar o pai ser pai:

Confiança, aceitação e diálogo. Estes são os três ingredientes para deixar o pai ser pai.

. Confiança

Acredito que possa considerar que é a pessoa que mais sintonia com as necessidades do vosso filho tem e que mais agilmente dá resposta a elas. E nada há de errado nisso. Em todo o caso, para que pai e filho possam desenvolver laços afetivos fortes e para que o pai se sinta envolvido no cuidado do filho, a mãe tem de dar espaço para que isso aconteça. À partida, nada de muito estranho acontecerá se der ao pai esse importante espaço para ser ele a escolher a roupa, a brincar ou a adormecer, por exemplo. Aquilo que no futuro a criança irá lembrar é o tempo de qualidade que passou com os pais (independentemente da história que ouvia ao dormir, da roupa com que ia para a escola ou se o banho começava pelo shampoo ou pelo gel de banho…).

Fazer é a melhor forma de desenvolver competências e de se aumentar a confiança no papel de pai (e de mãe).

Confie.

. Aceitação

Existem muitas formas ajustadas de se cumprir uma mesma tarefa. Somos todos diferentes, com histórias de vida diferentes, com gostos e preferências diferentes, com opiniões diferentes. Tal não indica que uma forma seja a certa e todas as outras sejam erradas.

Dar um passo “atrás”, permitindo que o pai assuma (algum)as rédeas é também abrir a oportunidade para o seu próprio autocuidado, uma variável indiscutível para mães e pais se sentirem mais realizados e felizes na parentalidade.

Aceite que havendo alinhamento quanto a temas verdadeiramente relevantes, tudo o resto serão pormenores pouco impactantes no crescimento saudável do seu filho.

. Diálogo

A consistência parental é um ingrediente importante para o crescimento harmonioso das crianças, nomeadamente a consistência entre ações da mãe e ações do pai. Consistência no que diz respeito a grandes temas. (Se começa pela fruta em vez da sopa, se veste umas calças de fato de treino com uma camisa de cerimónia, se ouve a história na cama ou ao colo, são temas que em princípio não têm impacto no bem-estar da criança.)

Os momentos de desacordo poderão surgir (irão surgir!), pelo que procurem conversar sobre as divergências longe da criança. Se acabar por acontecer a frustração pelo desacordo surgir à frente da criança, recordem que são modelos e resolvam os impasses de forma positiva, respeitadora e cooperativa.

Sejam como uma equipa. Partilhem valores, tomem decisões juntos, abordem obstáculos de forma construtiva, escutem-se sem julgamento. Se para si for difícil dar espaço para o pai ser pai, partilhe os seus receios e, em conjunto, encontrem formas para que se sinta mais confortável e tranquila, sem que isso signifique impedir que o pai faça as coisas ou estar constantemente a criticá-lo pela forma como faz as coisas. Regularmente compartilhem aquilo que pensam e sentem em relação à parentalidade.

Converse. Aceite. Confie.

Receba o meu abraço.

Inês Afonso Marques

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