Continuar a ser família depois do divórcio

Cláudia Morais // Setembro 17, 2019
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É cada vez mais frequente ouvirmos falar de divórcio e de novas formas de família. Olhamos à nossa volta e damo-nos conta de que alguns dos nossos amigos já passaram pela experiência de uma separação, reparamos que em qualquer turma uma parte significativa dos alunos são filhos de pais separados e sabemos que as estatísticas são demolidoras (em Portugal há, em média, 70 divórcios por cada 100 casamentos). Estamos mais familiarizados do que nunca com o divórcio, mas isso está longe de significar que este seja um acontecimento banal, sobretudo quando nos toca a nós.

Quase ninguém casa ou decide viver a dois com a perspetiva de uma separação ou de um divórcio.

Nascemos e crescemos programados para construir laços afetivos. Sentimo-nos quase sempre mais felizes, mais seguros e mais livres quando temos a oportunidade de desenvolver um sentimento de pertença à nossa família. A maior parte do adultos que conheço ambicionam viver um amor intenso, que dure “a vida toda” e, assim, oferecer aos filhos a estabilidade e a alegria de uma família unida. Quase ninguém casa ou decide viver a dois com a perspetiva de uma separação ou de um divórcio. Não é uma questão de nos acharmos superiores aos outros, mas acabamos por viver como se esta realidade jamais nos pudesse tocar.

Também por isso, para a esmagadora maioria das pessoas, a decisão de avançar para o divórcio está envolta num turbilhão de dúvidas e sentimentos.

Quando um casamento se esgota, é provável que haja sensação de fracasso, culpa, tristeza, raiva e medo. E, mesmo para a pessoa que toma a iniciativa de se separar e que sabe, do fundo do coração, que já não é possível voltar a ser feliz na relação, as dúvidas são muitas, sobretudo quando há filhos. E, também neste caso há um luto que tem de ser feito.

Eu passo a maior parte do meu tempo enquanto psicóloga e terapeuta familiar a “salvar” casamentos, pelo que sei bem quão arduamente a maioria das pessoas lutam para que a sua relação dê certo e para que a sua família possa manter-se unida. Mas, uma parte do meu trabalho também passa por acompanhar pessoas num processo de separação. É impossível não sentir compaixão pelo sofrimento que demonstram. Estão quase sempre a viver o maior pesadelo das suas vidas e estão também quase sempre a dar o seu melhor para evitar mágoas.

Ninguém merece navegar sozinho ao longo de um processo de divórcio.

Visto de fora, é fácil apontar o dedo. Quando olhamos para a notícia de que um casal está em processo de divórcio, seja um casal amigo, uma pessoa da nossa família ou uma figura pública, é fácil juntar as peças, atribuir responsabilidades e fazer juízos de valor, como se estivéssemos a falar de um episódio de uma telenovela. Sem querer, podemos até tomar o partido de um e deixar alguém que precisa de nós numa posição ainda mais vulnerável.

Ninguém merece navegar sozinho ao longo de um processo de divórcio. Ninguém merece ser julgado quando está a viver um dos acontecimentos mais difíceis da própria vida.

O divórcio é um dos acontecimentos mais stressantes por que o ser humano pode passar e ninguém está no seu melhor nesta fase.

Mas, qualquer pessoa que esteja a passar por um divórcio sente-se pressionada a fazer escolhas perfeitas. Afinal, a maioria das pessoas à sua volta espera, por exemplo, que seja capaz de tomar as melhores decisões no que diga respeito aos filhos.

Praticamente todos os pais e mães com quem tenho trabalhado desejam o melhor para os seus filhos e esforçam-se para fazer as escolhas que os protejam. Mas, como é que se pode ter certezas absolutas quando se está um caco? Como é que se pode fazer as escolhas emocionalmente mais inteligentes quando a nossa vida está virada do avesso? Como é que se mantém a calma e a objetividade quando uma parte das pessoas que costumavam apoiar-nos nos viram as costas? Como é que se consegue prestar atenção plena às necessidades dos filhos quando há tanta incerteza (e medo) em relação ao futuro?

Como continuar a ser família depois do divórcio?

Quando decidi escrever o livro “Continuar a ser família depois do divórcio”, parti com a intenção clara de ajudar quem está a passar por um divórcio com compaixão e amparo. Procurei dar voz ao turbilhão de emoções por que se passa, tentei dizer de forma clara “É normal e vai passar”. Mas, também dei o meu melhor para partilhar o meu conhecimento e a minha experiência, no sentido de dar a conhecer as ferramentas para que qualquer pessoa possa gerir as emoções com inteligência emocional e aprender a lidar com todas as decisões que é preciso tomar – desde o momento em que a decisão é anunciada aos filhos e/ou à família alargada até ao momento em que surge uma nova relação.

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