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	<title>Marta Amorim, autor em Simply Flow by Fátima Lopes</title>
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	<description>Bem-vindos à plataforma “Simply Flow by Fátima Lopes”, totalmente dedicada à saúde e bem-estar.</description>
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	<title>Marta Amorim, autor em Simply Flow by Fátima Lopes</title>
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		<title>A gravidez e a genética</title>
		<link>https://simplyflow.pt/a-gravidez-e-a-genetica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marta Amorim]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Jun 2025 05:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[SAÚDE]]></category>
		<category><![CDATA[genética]]></category>
		<category><![CDATA[Gravidez]]></category>
		<category><![CDATA[Marta Amorim]]></category>
		<category><![CDATA[saúde]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Ter um filho saudável é o maior Euromilhões que podemos ganhar. Mas como o garantimos? Será que o conseguimos fazer?</p>
<p>O conteúdo <a href="https://simplyflow.pt/a-gravidez-e-a-genetica/">A gravidez e a genética</a> aparece primeiro em <a href="https://simplyflow.pt">Simply Flow by Fátima Lopes</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A gravidez é um momento único por muitos motivos. É um grande salto para um sítio de antecipação, sonhos, esperança, mas também de medos. E se não correr bem? E se o bebé tiver problemas? Ter um filho saudável é o maior Euromilhões que podemos ganhar. Mas como o garantimos? Será que o conseguimos fazer?</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Os riscos na gravidez</strong></h2>



<p>Em todas as gravidezes há riscos. Riscos por doença materna (como diabetes ou úteros anómalos), risco por toma de fármacos que podem afetar a embriogénese (como o valproato de sódio, usado na epilepsia), riscos por fatores ambientais (como radiação). E há riscos genéticos!</p>



<p>Sou médica de Genética e vou tentar explicar-te estes.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>A informação genética: o nosso manual de instruções</strong></h2>



<p>A informação genética é a nossa essência. São as instruções para tudo o que somos, que nos tornam únicos, mas também iguais a todos os outros. Os humanos partilham 99% da informação genética, porque as regras para o nosso funcionamento são muito importantes e admitem poucas alterações.</p>



<p>Quando falamos em doença genética, falamos em alterações destas instruções. As instruções (o nosso ADN) estão arrumadas em grandes enciclopédias de informação (os cromossomas), e podemos ter doença que resulta de uma alteração no número das enciclopédias (como a trissomia 21), por páginas rasgadas, linhas rasuradas ou apenas uma palavra, daquelas importantes, escrita de forma errada.</p>



<p>Na gravidez, há risco de malformações ou doença por alterações em todos estes: número de cromossomas, deleções ou duplicações de pequenas partes e alterações num só gene. Comecemos por estas últimas.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Doenças recessivas e compatibilidade genética</strong></h2>



<p><em>“– Doutora, o meu grupo de sangue é A e o do meu marido é 0. Somos compatíveis?”</em></p>



<p>Não são raras as vezes que me fazem esta pergunta em consultas de Genética Médica, seja antes ou durante uma gravidez.</p>



<p>O grupo de sangue nada diz sobre a nossa compatibilidade enquanto parceiros num projecto parental. Mas esta dúvida assenta na noção de que algo no nosso sangue torna mais ou menos arriscado ter um filho com determinado parceiro. E o que é isso, então?</p>



<p>A nossa informação está escrita em duplicado — temos uma cópia materna e outra paterna de cada gene. Para alguns, basta um erro para existir doença — doenças dominantes. Para outros — doenças recessivas — ambas as cópias têm de ter erro.</p>



<p>Assim, uma pessoa com um erro é apenas portadora e não manifesta doença. E apenas filhos de casais em que ambas as pessoas são portadoras de uma alteração num mesmo gene têm risco de doença. Mas, sem uma história de doença clara e, sobretudo, sem estudos genéticos, não temos como saber.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Testes de portador: o mais próximo da “compatibilidade”</strong></h2>



<p>Hoje já existem testes para despiste destes estados de portador, de outra forma silenciosos. Isoladamente, estes riscos são baixos. Mas, se juntarmos todas as doenças recessivas, estes riscos já não são negligenciáveis. E existem recomendações para informar futuros pais da existência destes testes.</p>



<p>Habitualmente são feitos em amostras de sangue (e assim se cristaliza esta ideia de que a genética está no sangue), mas na verdade qualquer tecido poderia ser estudado, já que a informação genética está presente em todas as células.</p>



<p>Estes testes são o mais próximo que temos de testes de “compatibilidade”. Não eliminam o risco destas doenças, mas diminuem-no. Não permitem corrigir o erro, apenas conhecê-lo e adoptar estratégias para reduzir o risco.</p>



<p>As opções são: o diagnóstico molecular pré-natal — teste invasivo durante a gravidez — ou o diagnóstico pré-implantação — seleção de embriões a implantar no útero, recorrendo a técnicas de reprodução medicamente assistida.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>E a consanguinidade?</strong></h2>



<p><em>“– E Dra., os meus avós eram primos. Há riscos para os meus filhos?”</em></p>



<p>A consanguinidade aumenta o risco destas doenças recessivas, porque há uma maior probabilidade de dois parceiros terem alterações genéticas idênticas (por serem da mesma família e partilharem informação genética).</p>



<p>Mas lembra-se do que eu disse acima: apenas filhos de casais em que ambas as pessoas são portadoras de uma alteração num mesmo gene têm risco de doença. Ou seja, o risco aumentado destas doenças pela consanguinidade acontece apenas para filhos de casais com consanguinidade. Não é extensível a outras gerações. Por isso, não — não há risco para filhos de filhos de primos, se é que me faço entender.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Doenças dominantes: basta um erro</strong></h2>



<p>E as doenças dominantes? Aquelas em que basta um erro num gene? Essa é outra história, com diferentes problemas.</p>



<p>Se basta um erro, pode haver história familiar. Se sim, podemos usar as mesmas ferramentas de diagnóstico pré-natal molecular orientado ou pré-implantação já referidas.</p>



<p>No entanto, como basta um erro, esse erro pode acontecer de novo, não ser herdado de ninguém. E aqui a porca torce o rabo: se tiverem manifestações detetáveis por ecografia, é possível o diagnóstico. Se não (como, por exemplo, perturbação intelectual), não!</p>



<p>E depois ainda existem as doenças dominantes que só se manifestam na idade adulta, como o cancro familiar ou doenças neurodegenerativas, como a “doença dos pezinhos” (doença prevalente em Portugal, que nada tem a ver com o teste do pezinho e cujo nome correto é Paramiloidose Familiar), pelo que podem ser desconhecidas no momento de uma gravidez ou planeamento da mesma.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Aneuploidias: alterações nos cromossomas</strong></h2>



<p><em>“– Tenho história de doença genética na minha família e estou preocupada: tenho um primo com Síndrome de Down.”</em></p>



<p>As alterações dos números de cromossomas (aneuploidias) são uma causa importante de malformações fetais. O risco destas associa-se à idade materna — aumenta exponencialmente após os 35 anos de idade e, por isso (na grande maioria dos casos), não há risco familiar. Resultam de erros esporádicos na formação de uma célula reprodutora, não de fatores com risco hereditário.</p>



<p>Os erros nos números dos cromossomas são todos possíveis, mas na sua maioria são inviáveis e não permitem uma gravidez com sucesso. Aquelas que nos preocupam são as trissomias 13, 18 e 21. Esta última, a Síndrome de Down, é a mais prevalente.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>O que podemos fazer para detetar a Síndrome de Down?</strong></h2>



<p>A Síndrome de Down está invariavelmente associada a atraso global do desenvolvimento e perturbação do desenvolvimento intelectual, e com expressão variável a malformações de diferentes órgãos, como o coração ou intestino.</p>



<p>As malformações têm tradução ecográfica (e permitem diagnóstico); o atraso do desenvolvimento, não! Uma ecografia sem alterações é, então, insuficiente para excluir diagnóstico.</p>



<p>O fator idade também não é suficiente — representa apenas um risco.</p>



<p>Assim, o <a href="https://www.instagram.com/marta.amorim_genetica/p/DHBQFiYoND5/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">rastreio</a> destas doenças tem vindo a ser optimizado: de realizar amniocentese sempre em mulheres com mais de 35 anos, para uma estratificação de risco através de um rastreio combinado, que engloba fatores clínicos, laboratoriais e ecográficos, e finalmente para a possibilidade de estudo do ADN fetal livre em circulação materna através de uma análise ao sangue desta. Este teste, que vulgarmente conhecemos como NIPT (sigla em inglês para teste pré-natal não invasivo), mudou as regras do jogo!</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>O NIPT: um avanço revolucionário</strong></h2>



<p>Feito por amostra de sangue materno, sem janelas temporais (em qualquer altura após as 9 semanas), é o rastreio com maior sensibilidade e especificidade para as principais aneuploidias.</p>



<p>A gravidez provoca um aumento em circulação de pequenos fragmentos de ADN, com origem placentar, que refletem o ADN do feto (tirando pequenas exceções em que a alteração está só na placenta). E por isso, atenção! Eu usei a palavra <em>rastreio</em>. Sim, embora tenha uma sensibilidade e especificidade acima dos 99% para as trissomias 13, 18 e 21, carece de confirmação diagnóstica (por exame invasivo) se indicar um risco alto de doença.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><strong><em>“Durante a gravidez fiz uma amniocentese e era normal. E agora o meu filho tem problemas. Como se explica isto?”</em></strong></p>
</blockquote>



<div class='yrm-content yrm-content-1' id='yrm-aRZY2' data-show-status='false'>
			<div id='yrm-cntent-1' class='yrm-inner-content-wrapper yrm-cntent-1'></p>



<p>Um pequeno parêntesis para um esclarecimento sobre o diagnóstico pré-natal invasivo. As técnicas invasivas são a biópsia das vilosidades coriónicas e a mais conhecida amniocentese. Os testes feitos dependem da nossa suspeita.</p>



<p>Se a suspeita é Síndrome de Down, a indicação é realizar um cariótipo — um exame que permite a visualização microscópica dos cromossomas (apenas isso). Noutros casos, como história familiar de doenças monogénicas recessivas ou dominantes, estudamos apenas uma variante num gene, previamente identificada num familiar.</p>



<p>Se o motivo para o exame são alterações ecográficas, pode haver indicação para fazer um estudo mais exploratório, de sequenciação mais abrangente, incluindo vários genes associados à suspeita clínica. No entanto, existem genes por descobrir, mecanismos de doença não esclarecidos e limitações das técnicas de sequenciação, que não permitem identificar tudo!</p>



<p>O que quero dizer com isto? Que é importante ressalvar que um teste que não encontrou alterações, não exclui doença genética. Um teste negativo exclui, e nalguns casos diminui, aquilo que foi pesquisado — e somente isso. A nossa resposta vai depender da nossa pergunta. E ainda há perguntas sem resposta.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>O futuro da genética pré-natal</strong></h2>



<p>Vou voltar ao NIPT e a esta nossa capacidade, em autêntica revolução, de estudar o DNA do feto no sangue da mãe. Traz-me esperança — e espero que a sinta também.</p>



<p>A sua aplicação está a ser escalada para despiste de duplicações, deleções e doenças monogénicas (aquelas que só têm uma “palavra” mal escrita). Sim, aquelas para as quais não temos resposta com a mesma eficácia (os ensaios já realizados são bastante promissores).</p>



<p>Discute-se muito atualmente o teste do pezinho genético, em que se testam muitas <a href="https://simplyflow.pt/compreender-as-doencas-geneticas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">doenças genéticas</a> ao nascimento. Os principais entraves são éticos e prendem-se com a incerteza de alguns resultados.</p>



<p>Eu acredito que essa revolução será de chama curta e será rapidamente substituída por um pan-teste genético pré-natal, uma vez que haja respostas para o que testar, como interpretar, o que reportar. Porquê esperar pelo nascimento, se pudermos, através de uma simples análise de sangue, tomar decisões ainda durante a gravidez?</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Um salto para o desconhecido</strong></h2>



<p>Recordando, podemos ter doença que resulta de uma alteração do número das enciclopédias (cromossomas), por páginas rasgadas (deleções) ou apenas uma palavra (gene) escrita de forma errada.</p>



<p>Para as doenças recessivas, pesa a herança genética (e podemos fazer testes antes da gravidez); nas alterações do número dos cromossomas, o acaso (e os testes podem ser feitos apenas durante a gravidez); e para as doenças dominantes, há um pouco das duas.</p>



<p>A evolução da nossa capacidade de testar não tem parado de crescer, e acredito que num futuro breve poderemos testar mais durante a gravidez e de forma não invasiva, sem nunca esquecer os limites dos testes e as implicações dos resultados.</p>



<p>Se a gravidez continua a ser um salto para o desconhecido? Continua! Mas cada vez mais vamos traçando linhas e caminhos, que nos permitam decisões ajustadas aos nossos desejos, medos, vontades e crenças.</p>



<p></div>
		</div><div class='yrm-btn-wrapper yrm-btn-wrapper-1'><div class='yrm-content-gradient-1 yrm-content-gradient'></div><span title='' data-less-title='' data-more-title='' class='yrm-toggle-expand  yrm-toggle-expand-1' data-rel='yrm-aRZY2' data-more='Ler mais' data-less='Ler menos'><span class='yrm-text-wrapper'><span class="yrm-button-text-1">Ler mais</span></span></span></div>
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			</item>
		<item>
		<title>Compreender as doenças genéticas</title>
		<link>https://simplyflow.pt/compreender-as-doencas-geneticas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marta Amorim]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 28 Feb 2022 07:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[SAÚDE]]></category>
		<category><![CDATA[doenças genéticas]]></category>
		<category><![CDATA[Genética Médica]]></category>
		<category><![CDATA[Marta Amorim]]></category>
		<category><![CDATA[saúde]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>São ainda muito poucas as doenças genéticas com terapias potencialmente curativas, mas grandes avanços aconteceram nos últimos anos.</p>
<p>O conteúdo <a href="https://simplyflow.pt/compreender-as-doencas-geneticas/">Compreender as doenças genéticas</a> aparece primeiro em <a href="https://simplyflow.pt">Simply Flow by Fátima Lopes</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Sou médica… de Genética Médica. É habitualmente uma apresentação que me devolve olhares de perplexidade: “mas isso é uma especialidade?”, “mas trabalha em investigação, não?”. É muito mais fácil compreender uma perna partida por uma queda, uma gastroenterite por um ovo fora de prazo&#8230; agora uma doença por ácido desoxirribonucleico alterado? O que é isso mesmo? Se é o seu caso e ficou curioso, fique para ler&#8230; Vou tentar explicar-lhe o que são as doenças genéticas e a importância do seu diagnóstico.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="o-acido-desoxirribonucleico-adn-o-codigo-da-vida"><strong>O ácido desoxirribonucleico (ADN) &#8211; o código da vida</strong></h2>



<p>O ácido desoxirribonucleico, vulgo ADN (ou DNA em inglês), é <strong>uma molécula de estrutura simples, mas leitura e compreensão complexa</strong>. Uma forma helicoidal, como uma grande escadaria até ao infinito, cada degrau uma letra: CTGGGAAAGTTTAAA&#8230; Uma simples sequência de 4 letras/bases (A-adenina, T-timina, C-citosina e G-guanina) que comanda tantos destinos.</p>



<p>Nos humanos são 3 biliões (de bases), numa sequência única, arrumadas em 46 cromossomas: 22 pares de autossomas, numerados de 1 a 22, numa ordem decrescente de tamanho e 2 cromossomas sexuais, XX nas mulheres e XY nos homens. Dois metros de ADN em cada uma das nossas células, que se multiplica e repete vezes sem conta, desde a primeira célula que resultou da fusão de um espermatozóide e de um óvulo, cada um contribuindo com metade do material genético.</p>



<p>Em 2001 foi publicado o primeiro “rascunho”<em> </em>desta sequência: o <strong>genoma humano</strong>. Mas estávamos longe de perceber todo o seu significado e hoje continuamos essa batalha pelo código da vida. Passo a passo, segredo a segredo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="e-se-eu-vos-dissesse-que-98-do-codigo-continua-a-ser-praticamente-indecifravel"><strong>E se eu vos dissesse que 98% do código continua a ser praticamente indecifrável?</strong></h2>



<p>Em apenas cerca de 2% a sequência faz para nós sentido, onde cada três letras codificam um aminoácido: por exemplo, UUU é fenilalanina, assim como UUC, mas UUA já codifica uma leucina, UCG uma serina, UGG um triptofano e UAG é um sinal STOP!</p>



<p>Chamamos a este processo <strong>tradução do ADN em proteínas</strong>, que conta com um intermediário agora famoso &#8211; o ARN mensageiro (ou RNA mensageiro, sim!, esse!, que se usa agora nas vacinas!).</p>



<p>A estes segmentos codificantes de ADN chamamos<strong> genes</strong>. Os genes são o código, as proteínas codificadas por estes, as ferramentas com que se constrói um ser. Muito depende da conversa entre ambos.</p>



<p>Três biliões de letras, 46 cromossomas, cerca de 20.000 genes, mas apenas um terço destes associados a doenças conhecidas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="mas-entao-como-se-lesa-o-adn-como-sabemos-que-o-codigo-deixou-de-fazer-sentido"><strong>Mas então como se lesa o ADN?&nbsp; Como sabemos que o código deixou de fazer sentido?</strong></h2>



<p>O primeiro passo para percebermos o código é relembrarmos a tecnologia de estudo do mesmo.</p>



<p>Em 2006, quando iniciei a especialidade de Genética Médica, pouco mais podíamos fazer além do <strong>cariótipo</strong> (técnica citogenética que permite contar os cromossomas e despistar grandes alterações estruturais – falta uma parte suficientemente grande para ser vista em microscópio? Há um cromossoma inteiro a mais, como na trissomia 21?) ou o estudo direcionado de pequenas porções do ADN (como o despiste da repetição de letras que dá origem à Síndrome de X-frágil; sequenciação de genes únicos; ou estudo por hibridação com fluorescência &#8211; FISH &#8211; de regiões com maior probabilidade de sofrerem microdeleções).</p>



<p>Nos anos seguintes surgiram tecnologias que permitem <strong>despistar as deleções e duplicações de forma global </strong>(array-CGH) e <strong>realizar sequenciação massiva do ADN</strong> (<em>next generation sequencing</em> ou NGS). Esta sequenciação pode ser feita amplificando e/ou analisando conjuntos de genes em painéis, de 2 a milhares, ou mesmo todo o genoma. Se imaginarmos os cromossomas como grandes enciclopédias, que contêm o código, enquanto pelo array-CGH analisamos o número de páginas (estão lá todas?, há partes rasgadas?, folhas em duplicado?), pela sequenciação massiva procuramos “erros ortográficos” (deixou o texto de fazer sentido?).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="e-voltamos-a-mesma-pergunta-como-sabemos-que-o-codigo-deixou-de-fazer-sentido"><strong>E voltamos à&nbsp; mesma pergunta: como sabemos que o código deixou de fazer sentido?</strong></h2>



<p><strong>Muitas vezes não sabemos. Nem sempre é fácil perceber o resultado de uma alteração do ADN.</strong></p>



<p>O ADN por vezes sugere, outras contribui, outras ainda determina. Alguns genes são jogadores de equipa, outros são individualistas. Traços como a cor dos olhos, inteligência, dependem de muitos. Outras são funções de poucos.</p>



<p>Por vezes saber o código de uns diz-nos muito, outras vezes tão pouco.</p>



<p>Nem tudo é preto e branco. Nem tudo gera doença.</p>



<p>O caminho que fazemos é o inverso. Não recorremos ao ADN como a uma bola de cristal, recorremos ao ADN como a um motor de um automóvel, que desmontamos e analisamos à procura da origem daquele ruído ou o porquê do carro estar a soluçar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="as-doencas-geneticas-quando-o-codigo-deixa-de-fazer-sentido"><strong>As doenças genéticas – quando o código deixa de fazer sentido.</strong></h2>



<p><strong>Cada um de nós tem um genoma único</strong> (exceptuando os gémeos monozigóticos). Pode estar alterado pelo número de cromossomas (quase sempre com consequências, como na trissomia 21), através de microdeleções e duplicações de parte de um deles, ou por alterações na sequência de bases, em relação a uma sequência de referência, às quais chamamos variantes. Algumas são frequentes – os polimorfismos -, outras são toleradas – benignas &#8211; e outras não &#8211; patogénicas. Classificá-las é, não raras vezes, difícil.</p>



<p>Os <strong>polimorfismos</strong> são os tais jogadores de equipa, que nos dão indicações sobre uma qualquer função, mas estão longe de ser deterministas na forma como respondemos a um estímulo: podemos ter um jogador em baixo de forma e toda uma equipa bem ou vice-versa. E isso é suficiente para o desfecho do jogo ser imprevisível. Para este pesarão outros dados individuais e ambientais que não conseguimos analisar de forma global aos dias de hoje.&nbsp;</p>



<p>A <strong>Genética Médica</strong>, uma <strong>especialidade médica</strong>, que em Portugal tem um programa de formação específico desde 2001, dedica-se então a estudar alterações do nosso genoma que se traduzem em doença – as alterações patogénicas &#8211; sejam cromossomas a mais, partes a menos ou variantes. Alterações deterministas, que impactam tão significativamente o código, que aquela conversa entre genes e proteínas se perde na tradução. Alterações que levam a ferramentas (proteínas) disfuncionais: ausência, alteração da quantidade (expressão), da estrutura (não funcionantes, mais pequenas), e que se traduzem em sinais e sintomas identificáveis e enquadrados numa qualquer síndrome, com um nome estranho e difícil de pronunciar.</p>



<p>São síndromes habitualmente raras, com morbilidade elevada e mortalidade infantil significativa. Raras por si só, mas muito prevalentes no seu conjunto.<strong> </strong><strong>Estima-se que 600.000 pessoas padeçam de patologias raras em Portugal</strong> (doenças com prevalência inferior a 1 em 2000 pessoas) e cerca de 80% destas são efectivamente de etiologia genética.</p>



<p>Os utentes da consulta de Genética Médica são, em mais de metade dos casos, crianças, que nos chegam por malformações congénitas, atraso do desenvolvimento psico-motor, dismorfismos, baixa estatura desproporcionada, patologia grave de órgão como surdez, cegueira, patologia renal, hepática, causada por “ferramentas avariadas” e não por outros agentes externos, como vírus ou traumas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="entao-as-doencas-geneticas-sao-sempre-congenitas"><strong>Então as doenças genéticas são sempre congénitas?</strong></h2>



<p><strong>Não!</strong> Somos uma consulta dos 9 meses aos 99 anos.</p>



<p>Uma “ferramenta avariada” pode resultar num erro estrutural congénito como uma cardiopatia, uma fenda lábio-palatina, ossos curtos ou frágeis, mas pode também dar predisposição para cancro em qualquer idade, ou levar à acumulação de compostos tóxicos com manifestações mais tardias na infância, ou mesmo na vida adulta.</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="682" height="1024" src="https://simplyflow.pt/wp-content/uploads/2022/02/compreenderasdoencasgeneticas_2_Fev22-682x1024.jpg" alt="" class="wp-image-17166" srcset="https://simplyflow.pt/wp-content/uploads/2022/02/compreenderasdoencasgeneticas_2_Fev22-682x1024.jpg 682w, https://simplyflow.pt/wp-content/uploads/2022/02/compreenderasdoencasgeneticas_2_Fev22-200x300.jpg 200w, https://simplyflow.pt/wp-content/uploads/2022/02/compreenderasdoencasgeneticas_2_Fev22-768x1152.jpg 768w, https://simplyflow.pt/wp-content/uploads/2022/02/compreenderasdoencasgeneticas_2_Fev22-460x690.jpg 460w, https://simplyflow.pt/wp-content/uploads/2022/02/compreenderasdoencasgeneticas_2_Fev22-160x240.jpg 160w, https://simplyflow.pt/wp-content/uploads/2022/02/compreenderasdoencasgeneticas_2_Fev22-320x480.jpg 320w, https://simplyflow.pt/wp-content/uploads/2022/02/compreenderasdoencasgeneticas_2_Fev22-480x720.jpg 480w, https://simplyflow.pt/wp-content/uploads/2022/02/compreenderasdoencasgeneticas_2_Fev22-640x960.jpg 640w, https://simplyflow.pt/wp-content/uploads/2022/02/compreenderasdoencasgeneticas_2_Fev22.jpg 853w" sizes="(max-width: 682px) 100vw, 682px" /></figure></div>



<h2 class="wp-block-heading" id="e-sao-sempre-herdadas"><strong>E são sempre herdadas?</strong></h2>



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			<div id='yrm-cntent-1' class='yrm-inner-content-wrapper yrm-cntent-1'></p>



<p><strong>Não.</strong> Os erros podem ser herdados de um progenitor ou dos dois, através do material genético transportado nos núcleos de óvulo e espermatozóide. Para algumas doenças um erro é suficiente – patologias com hereditariedade autossómica dominante &#8211; e para outras são necessários erros nos genes de ambos os progenitores &#8211; hereditariedade autossómica recessiva (são os mais comuns, mas existem outros tipos de hereditariedade). Todavia algumas doenças são erros novos, não expectáveis pela história familiar, nem pelos códigos já existentes.</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img decoding="async" width="1024" height="829" src="https://simplyflow.pt/wp-content/uploads/2022/02/compreenderasdoencasgeneticas_3_Fev22-1024x829.jpg" alt="" class="wp-image-17167" srcset="https://simplyflow.pt/wp-content/uploads/2022/02/compreenderasdoencasgeneticas_3_Fev22-1024x829.jpg 1024w, https://simplyflow.pt/wp-content/uploads/2022/02/compreenderasdoencasgeneticas_3_Fev22-300x243.jpg 300w, https://simplyflow.pt/wp-content/uploads/2022/02/compreenderasdoencasgeneticas_3_Fev22-768x622.jpg 768w, https://simplyflow.pt/wp-content/uploads/2022/02/compreenderasdoencasgeneticas_3_Fev22-460x372.jpg 460w, https://simplyflow.pt/wp-content/uploads/2022/02/compreenderasdoencasgeneticas_3_Fev22-160x130.jpg 160w, https://simplyflow.pt/wp-content/uploads/2022/02/compreenderasdoencasgeneticas_3_Fev22-320x259.jpg 320w, https://simplyflow.pt/wp-content/uploads/2022/02/compreenderasdoencasgeneticas_3_Fev22-480x389.jpg 480w, https://simplyflow.pt/wp-content/uploads/2022/02/compreenderasdoencasgeneticas_3_Fev22-640x518.jpg 640w, https://simplyflow.pt/wp-content/uploads/2022/02/compreenderasdoencasgeneticas_3_Fev22-960x777.jpg 960w, https://simplyflow.pt/wp-content/uploads/2022/02/compreenderasdoencasgeneticas_3_Fev22-1120x907.jpg 1120w, https://simplyflow.pt/wp-content/uploads/2022/02/compreenderasdoencasgeneticas_3_Fev22.jpg 1280w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure></div>



<h2 class="wp-block-heading" id="quem-deve-entao-ir-a-uma-consulta-de-genetica-medica"><strong>Quem deve então ir a uma consulta de Genética Médica?</strong></h2>



<p><strong>Crianças com suspeita de patologia sindromática</strong> (malformações congénitas, atraso do desenvolvimento psico-motor, dismorfismos), <strong>ou específica de órgão</strong> como surdez congénita, <strong>grávidas com achados ecográficos suspeitos</strong>, <strong>história familiar prévia de patologia genética</strong> ou <strong>adultos com algumas patologias neurodegenerativas </strong>(doença de Huntington, Paramiloidose Familiar), <strong>cardiomiopatia</strong>, <strong>oftalmopatia</strong> como retinopatia pigmentar, <strong>predisposição para cancro familiar</strong>, todos têm indicação para consulta de Genética Médica.  </p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img decoding="async" width="682" height="1024" src="https://simplyflow.pt/wp-content/uploads/2022/02/compreenderasdoencasgeneticas_1_Fev22-682x1024.jpg" alt="doenças genéticas" class="wp-image-17165" srcset="https://simplyflow.pt/wp-content/uploads/2022/02/compreenderasdoencasgeneticas_1_Fev22-682x1024.jpg 682w, https://simplyflow.pt/wp-content/uploads/2022/02/compreenderasdoencasgeneticas_1_Fev22-200x300.jpg 200w, https://simplyflow.pt/wp-content/uploads/2022/02/compreenderasdoencasgeneticas_1_Fev22-768x1152.jpg 768w, https://simplyflow.pt/wp-content/uploads/2022/02/compreenderasdoencasgeneticas_1_Fev22-460x690.jpg 460w, https://simplyflow.pt/wp-content/uploads/2022/02/compreenderasdoencasgeneticas_1_Fev22-160x240.jpg 160w, https://simplyflow.pt/wp-content/uploads/2022/02/compreenderasdoencasgeneticas_1_Fev22-320x480.jpg 320w, https://simplyflow.pt/wp-content/uploads/2022/02/compreenderasdoencasgeneticas_1_Fev22-480x720.jpg 480w, https://simplyflow.pt/wp-content/uploads/2022/02/compreenderasdoencasgeneticas_1_Fev22-640x960.jpg 640w, https://simplyflow.pt/wp-content/uploads/2022/02/compreenderasdoencasgeneticas_1_Fev22.jpg 853w" sizes="(max-width: 682px) 100vw, 682px" /></figure></div>



<p><strong>O objectivo da consulta de Genética Médica é o diagnóstico e por meio deste o maior conhecimento da doença, o que permitirá uma melhor vigilância, antecipação de cuidados, determinar riscos de recorrência para o próprio e familiares, oferecer opções reprodutivas (recorrendo a diagnóstico pré-natal ou pré-implantação) e cada vez mais terapias personalizadas.</strong></p>



<p>São ainda muito poucas as doenças genéticas com terapias potencialmente curativas, mas grandes avanços aconteceram nos últimos anos.</p>



<p>O conhecimento do gene e via específica onde ele se situa permite o desenvolvimento de terapias mais eficazes e com menos efeitos secundários (muitos já são aplicados na área da oncologia e outras patologias genéticas como a neurofibromatose tipo 1, fibrose quística e algumas doenças metabólicas).</p>



<p>O objectivo último será sempre o de substituir um gene defeituoso. Abordagens como entrega de um novo gene (terapia genética), reparação do existente (edição genética) estão em cima da mesa. A maior barreira a esta abordagem continua a ser a entrega deste gene: ter um veículo suficientemente grande, chegar aos tecidos alvo, ser integrado no sítio correcto do ADN, expressar a proteína na dose eficaz e por tempo suficiente, são algumas das etapas a cumprir. Diferentes veículos estão em estudo (vírus, nanopartículas, lipossomas) e alguns fármacos já têm aprovação, tanto pela FDA como pela EMA (agências de aprovação de medicamentos americana e europeia, respectivamente). Doenças como a atrofia músculo-espinhal (SMA) e uma forma de retinopatia pigmentar (por variantes patogénicas no gene RPE65) são dois exemplos de patologia genética com terapia genética já aprovada.</p>



<p>É um primeiro passo.</p>



<p>Outros virão&#8230;</p>



<p>Fique para ver.</p>



<p></div>
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