Ano novo, vida nova?

Ana Caetano // Janeiro 25, 2022
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ano novo
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Em meados de Janeiro, a sensação que surge é a de que todas as boas intenções das resoluções de ano novo se esfumam com o regresso à rotina. Daí até à tristeza e a resignação é um saltinho. Cabe, pois, refletir sobre esta dificuldade de permanecermos no que é bom e canalizar a respetiva energia para algo criativo como, por exemplo, as resoluções de ano novo, que podem ser feitas sempre que assim o entender e/ou sentir necessidade.

Há tempos recebi um elogio sobre um texto que escrevi. Em vez de o desfrutar, desvalorizei-o dizendo à pessoa que “aposto que diz isso a todos os autores”. Meio a sério, meio a brincar, devolvi uma prenda que me deram, ao interpretar o elogio como uma forma de me manter satisfeita. Do outro lado a pessoa entrou na brincadeira dizendo que se sentia ofendida para logo a seguir desfazer a suposta ofensa com os argumentos que apoiavam o seu elogio. Quando li “a parte da ofensa” confesso que gelei. Ao devolver a “prenda” poderia de facto ter ofendido quem tinha sido generoso comigo. Daí nasceu a ideia de escrever sobre a importância de receber elogios, aliada à dificuldade de percebermos o que, no nosso quotidiano, é efetivamente bom ou positivo.

A arte e a ciência de vivenciar as emoções agradáveis 

Seria de esperar que algo que é bom será bem recebido por qualquer pessoa. No entanto, quer na prática clínica quer na literatura, encontram-se exemplos do oposto. Não sabemos receber elogios (eu incluída) e, quando estamos a viver algo de bom surge uma vozinha lá no fundo a dizer “cuidado porque alguma coisa está prestes a correr mal” ou, como diz o povo, “quando a esmola é muita o pobre desconfia”. Por vezes, um abraço entre pessoas que se amam gera apreensão e ansiedade contaminando a sensação de amor que está a circular entre elas – “e se lhe acontece alguma coisa? O que vai ser de mim?” – interrompendo aquela sensação. Mas porquê esta pressa de sair do momento bom? 

Seremos exemplos de ingratidão ou tontice?

Noutro texto expus as dificuldades que encontro no consultório quando sugiro que a pessoa absorva a vivência da sensação de orgulho. Frequentemente faço mais de sete tentativas até a pessoa aceitar experimentar um pouco dessa emoção. Esta sensação de orgulho, sinal de saúde mental, surge após conquistas pessoais e expande-se ao ponto de as querermos partilhar com outros para os inspirarmos. No decurso desta partilha potenciamos conquistas maiores no futuro, nossas e dos outros. Contudo, a mestria ao serviço da comunidade é sistematicamente interrompida pelo medo de sermos arrogantes ou vaidosos.

Talvez aquilo que nos falte seja conhecimento sobre o que são as emoções agradáveis e a importância de cada uma na nossa sobrevivência. 

A psicologia começou por estudar os mecanismos comportamentais, introduziu mais tarde os mecanismos racionais, sendo que só mais recentemente as emoções ganharam estatuto para serem estudadas de forma autónoma. 

Os primeiros estudos centraram-se nas emoções desagradáveis devido principalmente a três aspetos:

  1. As emoções desagradáveis (ED) aparecem em maior número que as agradáveis, numa proporção de 3 ou 4 para 1, consoante os autores;
  2. Os problemas exigem atenção e sendo as ED em maior número também provocam mais problemas. Basta pensar na ansiedade, medo ou tristeza para entender o seu impacto na saúde mental;
  3. Os modelos criados para explicar o funcionamento de ED não servem para explicar as emoções agradáveis (EA). E, assim, torna-se difícil compreender a sua essência. 

Emoções desagradáveis VS Emoções agradáveis

Foi do trabalho realizado a partir dos anos 90 do século passado, principalmente por Barbara Frederickson, que se identificou uma das grandes diferenças entre ambas:

As ED estreitam o foco de atenção para agirmos de forma rápida e imediata, uma vez que, face a um perigo, temos simplesmente de nos proteger. Pelo contrário, as EA surgem em momentos de segurança e ampliam o nosso foco de atenção, permitindo expandir a nossa visão do mundo, conceber novas formas de resolver problemas ou, simplesmente, assimilarmos o que aprendemos. Exemplo disso é um comportamento comum aos mamíferos: brincar. Só ocorre em situações de segurança e muitas vezes serve de ensaio para a aquisição de competências que podem ser usadas no futuro. Assim, as emoções agradáveis enriquecem-nos no presente e equipam-nos com uma expansão intelectual, física e social, tornando-nos mais resilientes a longo prazo.

Então, como concretizar as resoluções de ano novo?

Como seres racionais procuramos significado em tudo…Os antigos não aceitaram as secas: inventaram a dança da chuva ou realizaram sacrifícios de vária ordem para aplacar a ira dos deuses a fim de merecerem a desejada chuva. Hoje atribuímos significado de outras formas, através de rituais, onde se inclui a celebração do Ano Novo. 

Deus Janus, o deus que olha para o passado e para o futuro, tendo dado origem ao nome atribuído ao mês de Janeiro.

Sim, é verdade, o ano novo é só uma mudança de dia, tudo o resto continua na mesma…ou não. É indispensável dedicarmos tempo a avaliar o caminho que fizemos até ao presente e para onde desejamos ir por forma a evitar o eventual vazio que se possa instalar e roubar significado às nossas conquistas, relações e ações. Na sociedade atual, o ano novo é o momento por excelência para fazer essa reflexão e preparar a mudança, mas a verdade é que podemos até fazer novas resoluções de mês a mês, adotando, claro, uma lista menor e mais específica de objetivos e metas a alcançar nesse período.  

Se queremos perder peso, aumentar o círculo de amigos ou gastar menos tempo nas redes sociais, tal não vai suceder com o pressionar de um botão. As nossas mudanças estão mais perto do processo da lagarta e da borboleta: há um tempo entre uma e outra, não adiantando abrir o casulo antes de tempo. Para evitar as fases pastosas (entre a lagarta e a borboleta) proponho-lhe a abordagem PPP – Pequenos, Poucos e Possíveis:

  • Pequenos: é mais fácil introduzir pequenas mudanças no dia a dia do que fazer algo radical. Em vez de se inscrever no ginásio e dizer que é para ir todos os dias, coloque a fasquia em “uma vez por semana é fantástico, duas por mês é melhor que nada”;
  • Poucos: as nossas vidas estão cheias de solicitações e encaixar coisas novas implica organização e energia. Em vez de pensar que pode mudar toda a sua dinâmica de casal marcando sessões de terapia, passar dois fins-de-semana românticos por mês fora de casa e ainda conseguir ver as séries que tem na sua lista para passar “mensagens encapotadas” à sua cara metade, pode optar apenas por uma delas e perseguir ferreamente a sua concretização;
  • Possíveis: os grandes objetivos inspiram-nos, sem dúvida, mas apreciar o que de bom nos acontece alimenta-nos em doses diárias. Dê espaço à integração de tudo o que de bom já se encontra presente na sua vida. Essa integração exige disponibilidade para absorver e sentir a sensação agradável associada. Assim, ao longo do ano, vai fortalecendo o seu bem-estar o que a/o prepara para os momentos em que pode concretizar o grande sonho ou aproveitar a oportunidade imperdível.

Passinho a passinho, rumo às grandes mudanças que mais deseja

Em suma, pequenos, poucos e possíveis para chegar às grandes mudanças que deseja que ocorram na sua vida. Acima de tudo, e para este ano novo, onde quase tudo parece incerto, mantenha um passo firme e focado no momento presente enquanto prepara o melhor que está para vir.

Votos de um bom ano novo!

Nota final: Este texto baseia-se na informação recolhida a partir destes dois artigos:

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