Amor para a vida toda, até que a morte nos separe...

Cristina Felizardo // Junho 23, 2021
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para a vida toda
para a vida toda

E assim começou a história deles, o casal de enamorados que, perante o olhar de família e amigos, prometiam-se amor para a vida toda. Um beijo selou o compromisso e todos saudaram os noivos. A vida era bela, sem dúvida. Naquele momento era o sonho dela tornado realidade: a história da princesa que encontra o seu príncipe encantado e viveram felizes para sempre. Pelo menos era o que atravessava o seu pensamento enquanto deslizava pelo enorme salão da festa para a primeira dança com o noivo. O seu noivo… ai! Marido! A palavra ainda era muito nova e ainda não saía com a ligeireza que se pedia. 

A vida continuou levando o jovem casal de enamorados atrás de si. 

Aquele amor jovem, romântico e intempestivo, cresceu e deu lugar a um amor companheiro. Aqui a magia dos reinos dos príncipes encantados e das princesas em perigo já tinha perdido o seu encanto, mas isso não a perturbava, ou entristecia, pelo contrário: fazia-lhe sentido assim. Era melhor. Os filhos, os desafios profissionais, a rotina doméstica, tudo isso, tinha transformado o seu príncipe perfeito, num homem real, mundano, cuja barriguita que teimava em se salientar atrás da camisa, camuflava os outrora abdominais perfeitos e denunciava quão de carne e osso, ele realmente era. E era tão melhor. 

Aquele homem, outrora príncipe do seu reino, tinha sido o seu melhor amigo quando lhe contava uma história cómica só para a fazer rir nos dias mais tristes, quando passava horas de domingo à tarde ao seu lado a tagarelar e a relaxar, quando lhe segurou a mão durante o parto, quando ficou ao seu lado nos dias mais difíceis e sussurrou um “vamos ficar bem”; o melhor pai para os seus filhos, quando os ajudava nos trabalhos de casa, ou quando se enfiava dentro da casa das bonecas a beber o chá de faz-de-conta, ou quando se levantava às 04h00 para dar o antibiótico; o melhor colega de equipa quando a escutava sobre os problemas lá do escritório, quando ajudava a aspirar a casa, ou quando a ajudou a escolher a tinta para a parede do quarto aquando da remodelação; o melhor amante, quando combinava com a sogra para ficar com os miúdos no fim de semana em que tinha reservado estadia no hotel e spa, quando oferecia lingerie atrevida, ou quando a envolvia num terno abraço depois do amor e ficava na “conversa de almofada”; o melhor companheiro de uma vida. Sem dúvida, assim era bem melhor que continuar casada com um príncipe encantado. E a promessa de amor para a vida toda continuava.

Até ao dia em que a vida não continuou. 

E não foi preciso mais do que um segundo para que a promessa fosse falhada. “Lamento”, disseram eles, a família e os amigos, agora, novamente reunidos, não no salão de festas a admirar a noiva que elegantemente dançava com o seu noivo, mas a consolar a viúva que enterrava o seu marido. 

Até que a morte nos separe. Era a frase que ecoava dentro de si. 

Sim, tinha sido dita na altura da promessa, mas por alguma razão ela escolheu ficar com a outra verdade, que era mais simpática, aquela do amor para a vida toda. Aquela que lhe garantia que aquele marido, aquele homem, o companheiro de uma vida, continuaria ali ao seu lado, a fazer equipa consigo, a dar-lhe a mão, a cuidar dos filhos, a amá-la… até ao fim da sua própria vida. Mas a morte veio e separou-os. E quando o fez roubou-lhe muito, fez com que perdesse muito. 

A viúva. 

Era o que a sociedade lhe chamava agora: viúva. Mas uma viúva apenas enterra o marido. Ela tinha enterrado tão mais do que isso. Enterrou o melhor amigo, o melhor pai dos seus filhos, o melhor colega de equipa, o melhor amante. Enterrou a sua cara-metade. E agora? Como conseguiria viver a vida sem metade de si? Sem o pilar que a amparava? Sem o porto seguro? 

Choramos quem amamos, por isso, a viagem que se seguiu começou em tristeza. 

É difícil, claro que é, mas em boa verdade, é a forma que temos de homenagear os nossos amores perdidos. Começa-se por chorar, por ansiar que o tempo volte atrás e reponha a ordem correta das coisas, por buscar o amor perdido nos detalhes do tempo, nos detalhes do espaço. Mas o tempo não volta atrás e a busca é frustrada. E chora-se quando se percebe que aquele amor é perdido para sempre. Mas depois as lágrimas enxugam. O olhar deixa de ficar posto no passado e começa a atentar o que a rodeia: os filhos que têm jeitos do feitio do pai, a remodelação da casa de banho do rés do chão que tinha ficado a meio e que agora tinha de ser concluída, tal como tinham combinado. Lentamente, ela vai encontrando um bocadinho do seu amor em cada gatilho de espaço, em cada gatilho de tempo, em cada doce memória. E tem ali tantas memórias. Tanta vida vivida. Tanto amor nessa vida. 

E uma saudade para a vida toda. 

Embora de coração destroçado ela percebeu: a verdade permaneceu a mesma, a do amor para a vida toda. Apenas inverteu. Afinal, foi ela que o amou, até ao fim da vida dele. Cumpriu a sua promessa. E agora, de coração em paz, guarda esse amor com ela, revisitando-o nas doces memórias, sempre que a saudade aperta, para sua vida toda. Até ao dia em que a morte os volte a juntar.

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