A importância do “não” para as crianças

Cláudia Morais // Setembro 12, 2018
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As crianças precisam de limites para serem mais felizes e saudáveis, e isso também passa pela nossa capacidade de resistir ao “beicinho” e dizer “Não”. Mas, será que vale a pena dizer “Não” só porque os outros o fazem? E, se dissermos “Não” e voltarmos atrás? Será que basta dizer “Não porque não” ou “Não porque eu não quero”?

Quando nasce uma criança, nasce um pai e uma mãe e, com eles, um conjunto de aprendizagens. Por mais livros que cada um tenha lido ou por mais teorias que defendam, na prática a realidade é sempre mais rica e mais desafiante. Há regras que temos a certeza que farão parte do nosso dia-a-dia enquanto pais e mães até sermos surpreendidos com tudo o que muda depois de sermos pais. Não é só uma questão de ficarmos mais “moles”. Estas certezas que temos antes de termos filhos e que caem por terra com a experiência da parentalidade têm mais a ver com tudo aquilo que vamos aprendendo com as nossas crianças.

Mas, se é verdade que há escolhas que jurámos que faríamos e que afinal trocámos por outras que, naquele momento, nos parecem mais ajustadas à realidade da nossa família, também é fundamental que sejamos capazes de reconhecer a importância das regras e que consigamos, com firmeza, dizer “não”.

Cada família define as suas regras 

“As crianças não devem dormir na cama dos pais.” “As crianças não devem utilizar os telemóveis durante as refeições.” “As crianças não devem fazer birra.” Quase todos os adultos têm mil e uma opiniões sobre a educação dos filhos dos outros, mesmo antes de serem pais. É natural. Só quem já viveu a experiência de educar duas ou três crianças sabe que há regras que, por muito bem-intencionadas que sejam, não se ajustam a todas as crianças. E, depois há regras que jamais se aplicariam à realidade de determinadas famílias.

Imagine uma mãe solteira, com duas crianças pequenas e pouco tempo para estar com elas. Se, enquanto ajuda uma das crianças a completar os trabalhos de casa deixar a outra a acabar de jantar e a assistir a um vídeo no telemóvel, pode ser rotulada de “má mãe”? Ou um pai e uma mãe exaustos com um bebé que nunca dormiu uma noite inteira – deverão ser crucificados porque a criança (ainda) não dorme no seu próprio quarto?

Nem todas as famílias conseguem juntar-se à mesa de jantar à mesma hora. Nem todas as crianças devoram a sopa em cinco minutos. E, está tudo bem. As crianças – e os adultos – sentir-se-ão mais felizes se as necessidades de cada membro da família forem reconhecidas e preenchidas e às vezes, para que isso aconteça, é preciso afeto e criatividade mais do que regras rígidas.

A importância dos limites

Claro que a felicidade das crianças, assim como a dos adultos, não deve ser confundida com a satisfação de todos os desejos. Nenhuma criança é verdadeiramente feliz se à sua volta não houver regras e limites bem definidos. Ainda que os nossos filhos possam mostrar-se tristes ou frustrados momentaneamente por não poderem satisfazer determinada vontade, sentir-se-ão muito mais seguros se compreenderem as regras da família, se souberem com o que é que podem contar em cada contexto e, sobretudo, se lhes for explicado o propósito de cada uma dessas regras.

Faz o que eu faço.

Se nós, pais, definirmos com clareza e honestidade as nossas intenções, e se as partilharmos com os nossos filhos ajustando a linguagem à idade de cada criança, é mais provável que as coisas corram bem. Toda a gente sabe que aquela coisa de “Faz o que eu digo, não faças o que eu faço” é meio caminho para o insucesso. De que adianta proibir as crianças de jogarem com o telemóvel ou com o tablet se nós, adultos, interrompermos a refeição a cada notificação de Facebook, Instagram, Whatsapp ou E-mail? É verdade que os adultos têm responsabilidades que as crianças não têm, mas até que ponto estaremos a aproveitar-nos dessa desculpa para termos privilégios diferentes das crianças?

“Não porque não” não é opção. 

“Mamã, posso comer só a massa e a carne? Não gosto de brócolos”. Há muitas respostas para este tipo de apelos. Mas, o melhor é começar por aquela que não revela respeito pela criança:

– Não.

– Porquê?

– Porque não.

Porque é que queremos que os nossos filhos comam vegetais? A maior parte dos pais e mães que conheço dão o seu melhor no sentido de proporcionarem hábitos de vida saudáveis aos seus filhos. Têm a melhor intenção do mundo. Só que às vezes esquecem-se um bocadinho de que as crianças, tal como nós, gostam mais de umas coisas do que de outras. Se a criança até come a sopa, qual é o problema de não comer brócolos? Ou, pelo contrário, se a criança não gosta de sopa, mas for capaz de comer os legumes inteiros, qual é o problema? Aparentemente, nenhum. O mais importante é que consigamos explicar à criança que ela, tal como nós, precisa de ingerir vegetais para que o seu corpo continue cheio de energia.

“É só desta vez.”

Para cada regra há exceções e estas são sempre bem-vindas quando permitem que as necessidades de todos os membros da família sejam respeitadas. Por exemplo, as refeições pré-feitas podem ser muito apetitosas, ainda que o seu valor nutricional seja mais fraco. Não sendo a opção mais saudável, nem para as crianças nem para os adultos, podem ser a alternativa mais ajustada num dia em que os adultos saiam demasiado tarde do trabalho. É muito mais provável que consigamos educar as nossas crianças no sentido de serem capazes de fazer escolhas que as respeitem e que respeitem as pessoas à sua volta se fizermos exatamente a mesma coisa na nossa vida (familiar e não só). Se, pelo contrário, um pai ou uma mãe fizer “finca-pé” e optar por manter todas as regras num dia em que se sinta doente ou exausto, desrespeitando a própria saúde, estará mais provavelmente a ensinar os seus filhos a agir dessa forma.

Mais frustração, menos depressão.

Não é mesmo nada fácil lidar com a frustração das crianças. Não me refiro às birras que possam vir na sequência de um “não”. Refiro-me ao “beicinho”, às carinhas de tristeza capazes de partir o coração a qualquer um. Mas, é essencial que sejamos fortes e que nos lembremos da intenção por detrás do “não”. Não faz sentido que uma criança falte à escola, deixe de comer a sopa ou adormeça à meia-noite só porque fez beicinho. É natural que as crianças se entristeçam quando os seus desejos não são atendidos. Nós, adultos, também lamentamos não podermos fazer tudo aquilo que nos apetece, certo? A questão é que é muito mais provável que os nossos filhos se transformem em adultos saudáveis e equilibrados na medida em que aprendam a lidar, desde muito cedo, com a frustração. Pelo contrário, as crianças que não estão habituadas a ouvir “não” estão muito mais vulneráveis a perturbações de humor como a depressão. A vida está cheia de obstáculos e regras – na escola, no parque, nos centros de diversão e, mais tarde, no emprego e na vida em sociedade. Quando nos habituamos a ouvir um “não” sem dramatizar, é muito mais provável que nos centremos na satisfação das nossas reais necessidades e que arregacemos as mangas para as preencher.

O “não” é essencial na educação das crianças e está associado à implementação das regras que promovem o bem-estar de todos. Nem todos os dias correm bem e há alturas em que as birras das crianças levam a melhor. Faz parte. Não vale a pena martirizarmo-nos. Assim como não vale a pena zangarmo-nos connosco porque nem sempre conseguimos ter a paciência ou o discernimento para explicar com clareza e honestidade as razões por detrás de um “não”. O que é mesmo importante é que tenhamos a intenção de o fazer na maioria das vezes e que nos lembremos de ajustar as nossas próprias regras a cada momento, procurando respeitar as necessidades de cada membro da família.

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