A importância do brincar para crianças emocionalmente fortes

Sílvia Pereira // Novembro 22, 2018
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À primeira vista pode parecer estranha a ideia de que as crianças que têm mais oportunidades para brincar são emocionalmente mais fortes. Mas, sim, é precisamente isto. Brincar é estruturante e organizador das emoções e do sentir da criança. Contribui de forma decisiva para a construção e desenvolvimento da sua estrutura de personalidade, evitando e resolvendo muitos dos problemas de comportamento.

De que forma o brincar organiza as emoções das crianças?

As crianças utilizam o brincar como palavras. Brincar é a forma de se expressarem. O recurso ao brincar, com jogos didácticos ou com brinquedos, dentro de uma relação com os seus pares ou com o adulto, ajuda a criança a expressar os seus sentimentos, pensamentos e as suas experiências; o seu mundo interno e externo. A brincar a criança tem a oportunidade de experimentar e treinar o seu sentir e de o organizar e reorganizar, criando uma evolução por alteração da sua estruturação cerebral. Esta organização das emoções leva a que a criança desenvolva, a partir do sentir, a criação de símbolos, de significados e do sentido próprio. Neste processo de desenvolvimento ficará emocionalmente mais organizada, mais experiente e mais forte para lidar com as situações de vida que vai vivenciando ao longo do seu crescimento.

Como o brincar reestrutura o funcionamento emocional?

Ao brincar a criança tem a oportunidade de exteriorizar o seu mundo interior tornando-o concreto. Isto possibilita a estimulação e a organização cerebral uma vez que é desencadeado o movimento interno da mente, que estimula a plasticidade natural das estruturas psíquicas e promove o desenvolvimento da linguagem interna da actividade funcional das funções psíquicas. Assim, através da construção da narrativa própria da criança e através da expressão da dinâmica da sua realidade, promove-se um processo de elaboração simbólica, através do qual é criada uma organização consistente do “Eu” em que emerge a criação do seu sentido próprio, da sua personalidade e da sua identidade. Isto é, o seu sentir transforma-se através do brincar passando assim a ser a sua nova construção interna e subjectiva do mundo externo e social à sua volta.
Tendo em conta que o ser humano desenvolve as suas funções psíquicas e psicológicas superiores através da mediação pela linguagem verbal e não-verbal, bem como através da construção pela cultura e pela história adentro da relação com os outros, o brincar assume-se como uma forma de internalização do sentir que promove o desenvolvimento destas mesmas funções psicológicas e psíquicas superiores. Logo, fundamental para o desenvolvimento mental saudável da criança tornando-a emocionalmente mais forte e mais capaz de lidar com as suas vivências.

Qual o papel do brinquedo ou do jogo didáctico neste processo?

Apresentam-se como “objecto intermediário” na organização e construção do “Eu” e no desenvolvimento pessoal e social – relacional da criança através do intercâmbio e da mediação que ali acontece em presença dos pares ou do adulto envolvidos neste brincar, quer por via da comunicação verbal, quer por via da comunicação não-verbal, dentro desta relação.

Os jogos ou brinquedos não precisam de ser muito elaborados para promover um desenvolvimento emocional saudável e forte. Lápis, cadernos, livros, plasticinas, carrinhos, blocos de madeira, animais e bonecos que facilmente recriam o mundo da criança são o suficiente para um brincar que sustenta a organização emocional.

A importância do brincar para crianças emocionalmente fortes

O brincar é entendido como um espaço único de construção, desenvolvimento, evolução, transformação, significação e resignificação de objectos, situações e relações sociais humanas; de construção de narrativa própria; de criação de sentido próprio constituído na relação com os outros, num ambiente percebido como social, cultural e histórico retratado neste brincar. Como tal, a criança tem, assim, a possibilidade de experimentar a apropriação de objectos do meio externo, de situações e de relações interpessoais do contexto social e cultural.

Não brincar é impedir a criança de viver com qualidade de vida. Ao estar disponível para brincar com a criança oferecemos-lhe muito mais do que o acto de brincar em si, damos-lhe a oportunidade de se ver a ela própria de forma mais eficiente e mais consciente, de se reconhecer a si própria como ser, como um “Eu”, de socializar, de expressar, explorar e concretizar os seus recursos internos.

Em suma, brincar é saudável, educativo e fundamental para a construção cerebral e para a estruturação da personalidade. Contribui para que a criança seja uma criança emocionalmente forte para lidar com as adversidades das suas vivências, mas sobretudo, para que venha a ser um adulto emocionalmente organizado e capaz de lidar de forma ajustada com as mais diversas situações de vida.

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